Moro num apartamento. Num quarto andar mais precisamente. A minha casa tem duas varandas, uma pequenina, daquelas onde cabe o coração, a outra bem maior, nessa cabe o mundo, pelo menos o meu. Como vivo num apartamento que fica num prédio, tenho obviamente vizinhos.
Há uma família de quem gosto bastante. Não os conheço, é claro. O meu "gosto bastante" significa que têm a capacidade de me emocionar quando me cruzo com eles pontualmente.
Não sei que espécie de leis eles violam todos os dias, mas transpiram felicidade por todos os poros. Já o vi abrir-lhe a porta do carro uma vez, já os vi andar de mãos dadas, mas a minha preferida foi mesmo vê-lo um dia a fazer um esforço hercúleo para segurar a porta do prédio enquanto ela entrava, e digo esforço hercúleo porque ia carregado com não sei quantos sacos de compras. Há por aí umas parvalhonas adeptas de umas ideologias igualitárias manhosas e subscritoras da lei das cotas que acham isto de certeza sexista. Parece que o homem está a demonstrar a incapacidade da mulher e a inferiorizá-la por lhe abrir a porta ou querer vestir-lhe o casaco. Não vou tentar rebater os argumentos das críticas do cavalheirismo, mas, já agora , também não vou perder a oportunidade de as mandar à merda.
Ela, por seu lado, é uma doçura. Bem tento, mas não consigo disfarçar o olhar de inveja quando me cruzo com eles no elevador e ela vai com a cabeça encostada ao seu ombro com um sorriso de felicidade, como se 15.000 milhões de anos de evolução cósmica tivessem ocorrido apenas com o objectivo de tornar aquele momento possível.
E depois há ainda a forma como falam um com o outro. Descer o elevador de manhã a caminho do trabalho com uma vontade imensa de ter continuado a dormir tem muito mais piada quando o faço acompanhado por um casal que se trata por "querida", "fofinho", "amor" e outras palavras maravilhosas do campo semântico do magnífico.
Eles têm duas crianças. Um petiz caladinho e sossegado com olhos de detective que parece absorver pedaços da realidade a cada olhar. A miúda é irrequieta e explosiva, daquelas que um dia ainda salta pela janela para descobrir a quê que sabe cair.
Ver os quatro juntos é um regalo para os olhos e um bálsamo para o coração.
Adoro estes meus vizinhos, mas se voltam a tocar vuvuzelas três horas seguidas, como fizeram esta tarde, juro que os mato à machadada.
Não sei quando começou. Ou talvez até saiba. Eu compreendo que tenha sido chato teres sido denunciado a meio de um roubo. Eu até aceito que haja uma vontade de vingança contra o gajo que te denunciou. Eu assumo o meu papel em toda esta novela mexicana, epá, mas porquê hoje ? Não podias ter escolhido outro dia ? Sabes onde moro, já te cruzaste comigo várias vezes na rua, por que raio tinhas que fazer isto logo hoje ?
No início foi tudo muito rápido, sem sequer ter direito a um daqueles diálogos que servem de prólogo nos filmes.
“Lembras-te de mim ? Eu disse que te ia apanhar !”
“Sim, mas olha, apanha-me outra noite porque estou com alguma pressa e tenho gente à espera.”
Dois segundos depois já estou a apanhar. Levo um soco entre o queixo e a boca, pelos vistos o gajo está a levar isto a sério e não vale a pena mandar bocas parvas. Dou dois passos atrás.
“Não achas que é melhor ter calma antes que isto piore ?”
Avança na minha direcção. Levanta a mão e soca o vazio, eu fui mais rápido desta vez. Não desiste. Mais dois socos perdem-se no ar, o terceiro acerta-me no ombro esquerdo. Empurro-o. Tenho tempo e espaço para fugir mas algo me prende as pernas, algo me amarra a vontade e fico a olhar impávido enquanto se levanta e volta a avançar na minha direcção. Nova tentativa, desta vez prendo-lhe o braço e enfio-lhe o punho no peito, por baixo do esterno, com toda a força que tenho e não tenho. Cambaleia, cai. Está com um joelho no chão a ofegar, devo ter acertado mesmo no sítio certo.
“Já percebeste que é melhor parar com esta merda antes que nos magoemos a sério ?”
No meio de um arraial de insultos viro-lhe as costas e vou-me embora.
“Estás a fugir oh maricas de merda ?”
Volto a virar-me. Agora está de pé com uma tábua de madeira na mão. Isto está mesmo a ficar complicado.
“Ainda bem que trouxeste uma muleta, vais precisar dela.”
É mais forte do que eu, não consigo estar calado nem sob ameaça. A porcaria da tábua passa ao lado da minha cabeça uma vez, à segunda acerta-me em cheio em cima do olho direito. Desta vez doeu a sério, agora sou eu que cambaleio inebriado por uma tontura súbita. Quando volto a levantar a cabeça ele está a avançar, e agora segura a tábua com ambas as mãos. Jogo o pé direito com força contra a parte que sei que lhe vai doer. Pronto, parece que isto resolveu de vez o problema. Mas não, ainda não. Dou-lhe mais um pontapé, de cima para baixo num dos joelhos. Está deitado no chão sem saber onde se agarrar por não saber o que lhe dói mais.
“Chega Nicolae”, digo-me a mim mesmo mas ignoro-me. Ajoelho-me sobre o seu peito, “Não faças isso !”, um soco, dois, três …
“Pára” pede-me ele. Quatro, cinco … Não percebes que não te estou a bater ? Não percebes que essa tua figura frágil e desprotegida me enoja ? Não consegues entender que olho para ti e só consigo ver a minha cara ?
Seis, sete … agarro-lhe os cabelos com a mão esquerda, puxo-lhe a cabeça para trás e levanto a mão direita para um soco final mas paro a meio.
Não sei o que aconteceu. Já revi a cena umas dezenas de vezes mas continuo a não compreender o que me fez parar. Pode ter sido o sabor acre do meu sangue na boca, pode ter sido o gosto amargo da adrenalina, a dor lancinante na cabeça. Posso ter tido uma epifania de humanidade no meio da selvajaria, posso apenas ter-me lembrado que estavas à minha espera.
Levanto-me e volto para casa. Olho-me ao espelho para ver o resultado da aventura. Um lábio inchado, um olho que parece uma batata mal enxertada e a mão direita vai começar a doer, é certo como um pêndulo. Não tenho paciência para tratar das feridas, que não são mais do que superficiais, pelo menos comparadas com as outras. Sento-me no sofá, troco duas smss e deito-me. Não consigo parar de tremer, não sei se de raiva, de vergonha ou de nojo. Já sei que não vou conseguir ficar aqui fechado mas ainda resisto a sair, estou no “good bye cruel world” dos Pink Floyd, o muro está definitivamente a fechar. Sou o Anakin Slywalker depois de chacinar os Jedis, vejo-me claramente a atravessar uma fronteira que não conhecia. Tenho que sair, tenho que te ver, tenho que ver alguém. Esta viagem tem que ser interrompida e tem que ser já. Não quero ver ninguém mas nunca precisei tanto de pessoas à volta. É isso, estou a precisar de ajuda, vou sair. Até já.
Ontem fui atropelado, e sem estar à espera. Foi logo pela manhã, como se fosse uma espécie de castigo por me recusar a acordar verdadeiramente antes das 10h30/11h00.
Na minha ronda diária pelos sites das escolas do Algarve descobri um vídeo feito por professores e alunos da escola secundária Francisco Fernandes Lopes, em Olhão. Foi imediato. Chocante. Apaixonante. Intenso.
Nuns breves seis ou sete minutos passaram-me à frente dos olhos seis anos de vida. Em pouco mais de 360 segundos, perdi vinte anos de vida e voltei a ser o puto que conheceu de olhos fechados todos os cantos e recantos daquela escola.
Os minutos de ansiedade antes do desejado 2º toque, as correrias pelos corredores, os jogos de futebol e as tropelias no mini trampolim às escondidas dos profs de educação física. Lembrei-me das aulas, das que gostava e das que nem por isso e dos professores e professoras que no intervalo do seu trabalho ainda tiveram tempo para fazer de mim o que sou. As partidas pregadas, as amizades criadas, beijos roubados e olhares trocados. Ontem a minha juventude voltou, tal como no Misplaced Childhood dos Marillion, e a culpa foi vossa.
Num tempo em que a educação aparece sempre nas notícias pelos maus motivos, a minha escola fez o contrário, num tempo em que a violência, o bullying, o desânimo e o protesto imperam a sua vontade, a secundária de Olhão mostrou aquilo que uma escola pode ser, aquilo que uma escola deve ser. A criação deste vídeo foi um trabalho colectivo e constitui o melhor cartão de visita que já vi uma escola fazer. Entre a visita guiada estão presentes os mais importantes espaços, estão evidenciadas todas as actividades desenvolvidas. Há uma alegria e uma dinâmica contagiantes que nos chega a fazer esquecer os problemas que afectam o ensino nos dias que correm.
Ontem fui atropelado logo pela manhã e passei o resto do dia a rir. É verdade que também me correram algumas lágrimas, mas ri-me como há muito tempo não o fazia. Cada centímetro quadrado daquela escola é para mim solo sagrado, e como não me esqueço do que lá vivi, também não me esquecerei da forma como me fizeram recordá-lo.
http://www.youtube.com/watch?v=C3ecwTdCNQc
http://www.youtube.com/watch?v=C3ecwTdCNQc
Já se falava em surdina por muitos. Já se esperava por tantos outros, os que não temem a esperança. Já se adivinhava pela onda de simpatia e empatia que o cerca. António José Seguro afirmou publicamente o que uma grande quantidade de Socialistas ambicionava, quando o momento chegar, assumirá as suas responsabilidades e será candidato a Secretário-geral do partido.
No dia em que foi assinado o acordo entre José Sócrates e Pedro Passos Coelho com vista à redução do défice e à consolidação das contas públicas, Portugal toma conhecimento da disponibilidade de António José Seguro para um dia liderar um dos partidos estruturantes da nossa Democracia, e, fruto disso, para liderar o nosso país. Na manhã em que somos atropelados pela violência das nossas dificuldades presentes, tomamos conhecimento que, o futuro pode já estar em construção.
António José Seguro tem uma dimensão política rara nos dias que correm. Recusa o discurso tecnocrático tão em moda naqueles que se apresentam como donos de soluções que nem sequer gostam de ver questionadas ou discutidas. António José Seguro rompe com o pensamento único do “tem que ser” e regressa à Política, aquela com P maiúsculo de que tanto gosta de falar. Há de facto uma forma diferente de fazer política, há uma forma de entender e debater os assuntos com a abertura de quem quer gerar soluções sem fazer imperar a sua agenda. Há, tem que haver, uma forma de alargar a governação ao entendimento e compreensão dos que são governados, ao invés de se limitar esse nobre acto a uma constante cruzada contra os que põem em causa as opções tomadas.
António José Seguro tem um currículo ímpar na defesa dos direitos dos cidadãos, tem uma agenda muito própria na luta pela despartidarização da sociedade, agenda essa fruto da sua experiência associativa e de uma crença profunda que a Democracia não sobrevive sem os partidos políticos, tal como não é completa só com eles. A reforma da Assembleia da República elaborada no mandato anterior é apenas um dos exemplos desta forma de entender que quem exerce o poder pode, tem e deve ser escrutinado pelos outros. A vontade de permitir que sejam os cidadãos a propor o Provedor de Justiça é outra assinatura reconhecível desta forma de entender uma sociedade democrática tais como são as suas inúmeras e conhecidas intervenções no sentido de haver uma cada vez maior liberdade de voto dos deputados.
Em António José Seguro o discurso populista contra o sistema e contra os políticos não tem eco. António José Seguro é um político, é-o com honra, com paixão e com ambição. Com a honra de quem tem um percurso impoluto no serviço à res publica sempre que foi chamado a exercer funções executivas ou parlamentares, com a honra de quem discordando soube fazê-lo na altura certa e nos canais próprios, ao invés de entrar no espalhafato da berraria na praça pública. Com a paixão de quem não se verga ao discurso da inevitabilidade, com a paixão de quem luta pelo que acredita e de quem acredita que pode fazer a diferença. Com a ambição de quem sente que é possível mudar para melhorar, de quem sabe que por muito popular que seja atacar o "sistema" é muito mais profícuo intervir de forma a melhorá-lo, com a ambição de quem quer um novo rumo para a nossa política, para a nossa sociedade, para o nosso país.
António José Seguro dá-se ao luxo de acreditar no que diz, e de saber porquê. Quando fala da necessidade de libertar os deputados do jugo dos directórios partidários, fá-lo porque entende que nenhuma Democracia representativa pode ser plena enquanto a Assembleia da República for povoada por "funcionários dos partidos". Quando repete até ao expoente da exaustão que os eleitores têm que conhecer o trabalho efectuado pelos parlamentares, fá-lo porque sabe que nenhum sistema político sobrevive a longo prazo ao divórcio entre eleitores e eleitos. Quando apela a novas formas de participação cívica fá-lo a pensar que todos têm o direito de intervir na sociedade, TODOS, e não só os que procuram os habituais canais políticos para o fazer.
Com António José Seguro haverá decisão e diálogo, cada qual com o seu peso e medida. Haverá procura de novas soluções para problemas antigos e investimento na melhoria da saúde da nossa Democracia. Não é de se esperar uma promessa irresponsável numa solução quase mágica das nossas dificuldades, mas, tenho a certeza, será reforçada a comunicação entre o poder executivo e os portugueses, que são, em última análise, sempre os actores principais da nossa Democracia. Em António José Seguro não há a tentação do culto da personalidade, ele é um homem de equipas e recusa a excessiva personalização do poder com a mesma veemência com que recusa a dimensão messiânica que continuamos a atribuir aos nossos líderes.
Ontem, dia 15 de Maio, senti-me melhor e mais aliviado, não só como Socialista, mas também, e acima de tudo, como Português. Por muitas dificuldades que vivamos, por muitas dúvidas que tenhamos, por muito impossível que possa parecer o caminho, permito-me a olhar o futuro com esperança. Muitos amigos, colegas e camaradas referem-me com frequência as saudades que têm de um passado em que tudo aparentava ser melhor. Com a disponibilidade manifestada por António José Seguro, saudades, eu já só consigo ter do futuro.
Algures perdida na memória está a fundação de Olhão. De acordo com os relatos que nos chegaram, o pólo aglutinador deste novo povoado foi uma grande nascente de água potável que estava situada num terreno seco cercado por pântanos e sapais.
Por uma daquelas ironias que fazem a história, a presença de água doce possibilitou a criação de uma terra que passou a viver da água salgada.
Os Olhanenses cedo descobriram de onde viria a sua riqueza e a sua glória. E viraram-se para o mar. Inicialmente fizeram-no por uma questão de sobrevivência e, só depois, perceberam as enormes possibilidades que se abriram à sua frente.
O povo de Olhão mariscou em todos os poros da ria formosa. Pescou na ria e, quando se lançaram no mar alto, fizeram-no com a coragem do desespero e empurrados por um impulso que só a fome pode dar.
As gentes de Olhão fizeram dos seus barcos extensões das suas casas, levaram a todos os cantos do mundo pedaços de si e da sua terra. Um barco a navegar é muito mais do que um meio de transporte, está muito além de uma simples obrigação profissional.
Há quem se perca fora de casa, há quem se sinta irremediavelmente desenraizado quando a distância o separa daquele pequeno mundo que é o seu. Os Olhanenses resolveram esse problema levando com eles esse pequeno mundo. Esculpiram-no em madeira, colocaram-lhe umas velas e deixaram que os seus sonhos substituíssem o vento e os levassem inexoravelmente em direcção ao infinito.
Venceram correntes e enfrentaram tempestades. Cavalgaram ondas e rasgaram auto-estradas marítimas onde nada havia, a não ser o bafo imponente do oceano.
Tudo iniciou com a pesca, mas foram vertiginosamente arrastados para o comércio, e, para a sua extensão legalmente duvidosa, o contrabando. Entre os mares de Larache e os portos da Sardenha, entre as enseadas da Bretanha e as águas tropicais do Brasil, lá estavam eles, à espera de ser encontrados. A pescar, a vender, comprar e contrabandear.
Os Olhanenses adoptaram o mar, e, fazendo-o, tornaram o mundo o seu quintal dos fundos. Entre viagens que se perdiam num tempo de espera que não terminava, entre lágrimas e naufrágios, Olhão cresceu sob alicerces de água salgada. Foi ao mar que lançaram as suas sementes, foi do mar que colheram os seus frutos.
Hoje, alguns séculos depois, apesar de afogados em dificuldades e mareados pela, há muito decretada, morte da pesca, ainda há em Olhão alguns descendentes de um povo que um dia decidiu pescar e navegar em direcção ao futuro.
Foi a 8 de Maio de 1794. Não sei bem as horas nem os pormenores da situação mas calculo que tenha sido numa praça pública, e que a mesma estava cheia de gente, afinal há poucas situações tão mobilizadoras como um espectáculo de violência gratuito. Caminhou escoltado, o poder tem a infinita fraqueza de achar que tem que sujeitar a força as suas vítimas. Foi certamente apupado e insultado. As moles humanas têm o vigor dos covardes e só na sua miríade de indivíduos a pregar a acefalia a plenos pulmões conseguem pronunciar em público o que teriam asco de pensar em privado. Acarinho o pensamento de que se manteve hirto e íntegro até ao fim. Acalento a esperança de que tenha sorrido sarcasticamente quando lhe repetiram as acusações. Sim, elas foram repetidas. Mais uma vez, a tirania necessita de humilhar as suas vítimas antes de as destruir. É uma daquelas verdades insofismáveis, quem combate a razão é obrigado a ridicularizá-la porque sabe a priori que o tempo encarregar-se-á de repor a verdade.
Neste momento está deitado. O corpo tenso molda a tábua onde se deita, tábua essa, que em tempos, como parte de um carvalho, ou de um pinheiro, nunca sonhou terminar os seus dias como figurante de uma peça tão insidiosa. Os seus olhos são vendados. Pelo menos oferecem-lhe essa opção. Mais uma vez o meu carácter idealista obriga-me a acreditar que recusou essa espécie nojenta de sublimação da parte dos seus torcionários. Não ! Não aceitou ! Lavoisier fez questão de ver a lâmina afiada da estupidez a descer sobre o seu pescoço.
Foi no dia 8 de Maio de 1794. Um pedaço de ferro desceu, escravizado pela força da gravidade e controlado pelo poder arrogante de uns arautos de um pretenso mundo novo. Numa fracção de segundo uma cabeça separou-se de um corpo tornado inerte. Numa fracção de segundo a um dos cérebros mais brilhantes da humanidade foi sonegado o direito à vida.
Antoine Lavoisier é considerado por muitos como o pai da Química moderna. Durante a sua vida, reformulou a nomenclatura química, identificou e baptizou o oxigénio e o hidrogénio. Libertou-se da lei da morte ao postular a Lei da conservação da massa, segundo a qual, nada se perde, nada se cria, tudo se transforma, uma das mais populares citações conhecidas, aplicada às mais variadas situações. Pelo caminho provou que a combustão dependia da presença de oxigénio e reduziu à insignificância teoria do Flogisténio. Rasgou autoestradas em direcção ao conhecimento da estequiometria e ensinou-nos que o diamante é uma forma cristalizada de Carbono.
Mas e se Lavoisier estivesse errado ? Pensemos por um momento que a famosa “nada se perde, nada se cria, tudo se transforma” não correspondesse à realidade. Vamos pensar em nós, nas nossas vidas, nas nossas experiências, nos nossos sonhos. Vamos gastar algumas sinapses cerebrais a imaginar o que seria se simplesmente nos recusássemos a aceitar ser meros espectadores de um processo contínuo e infindável de transformação. É verdade que todos os átomos que constituem as moléculas que formam o nosso corpo não se esgotarão com a nossa morte. Eles existem à tempos infindáveis e sobreviver-nos-ão. Eles são produto de combustões estelares e fazem de nós, em última análise, produtos de estrelas ha muito desaparecidas na imensidão do tempo cósmico.
Gosto no entanto de acreditar que somos mais do que o ajuntamento das entidades físicas que forma o nosso corpo. Nesse sentido, olhando para a nossa, ou pelo menos para a minha, vida consigo ver um ganho constante e sucessivo, algumas transformações, mas nenhuma perda. Olhando para trás com os meus olhos sempre mais implacáveis para mim do que para os outros, tenho muita dificuldade em identificar situações de perda. Continuo com uma espécie de arrogância juvenil que entende todas as experiências vividas como um ganho.
É verdade que já não tenho próximos amigos que me são queridos, é verdade que já não tenho vivas pessoas que me foram, e continuam a ser, fundamentais, é, dolorosamente verdade, que amores sentidos não passaram de promessas lindas de poemas numa vida cada vez mais escrita em prosa. Mas e depois ? Será que isso foi uma perda. Como posso ter perdido algo ou alguém que carrego na memória à distância de um pensamento ? Como poderá ter desaparecido alguém a quem recorro nos mais solitários momentos de introspecção ?
O mesmo se passa com os sonhos. Continuo a criar sonhos à medida das situações e das pessoas com quem me cruzo. Insisto em ver a cada faceta da vida o que pode vir a ser e não me consigo satisfazer com ver o, muito mais seguro, que é. Olhar para a realidade actual é esquecer que o tempo presente é convencionado ser de três segundos. Pensar no presente é abdicar de imaginar o que será o próximo parágrafo que escreverei daqui a três minutos.Eu sei que sou um optimista inveterado. Mas sei por que o sou, e isso é que para mim é importante.
Lavoisier mudou a Química, e de uma certa forma o mundo. Lavoisier associou a degradação dos metais à presença de oxigénio, e, em última análise, a lâmina que o matou enferrujou na presença do oxigénio que ele baptizou muito mais depressa do que as suas ideias foram esquecidas. Lavoisier caiu como mártir no altar sagrado da alarvidade mas não será jamais esquecido.
Eu, contudo, em mais um ataque de convencimento postulo que a lei da conservação da massa não se aplica à minha vida. Comigo, nada se perde, tudo se cria e, em caso de necessidade, algo se transforma.
E transformar-me-ei.
Obrigado Lavoisier.
Uma das primeiras técnicas de engate que me ensinaram foi "quando não há substância, aposta na imagem". Passados para aí uns 20 anos decidi finalmente pô-la em prática. Como ando num blackout de escrita, ou seja, não há substância, decidi mudar a imagem para não dizerem que já não faço nada e que já não quero saber dos meus fieis dois ou três leitores.
Espero que gostem da cara nova e que tenham alguma tolerância pelo meu silêncio. Um dia voltarei, como aliás volto sempre.
Abraços e Beijinhos
Diz-se que o criminoso volta sempre ao local do crime. Assim foi. Não tive à minha espera polícia nem exército, mas crime cometido quando lá estive não foi muito grave. Foi uma terça feira, a de carnaval. Tal como na outra terça feira, a de início de Novembro, apenas um dos restaurantes estava aberto, o do Toy.
O espaço estava atolado de gente, a hora era tardia para almoçar, 14h30, o que nem foi muito grave porque no Alentejo o tempo corre mais devagar e a tolerância para quem não segue os preceitos temporais estabelecidos é maior.
Desta vez, ao contrário da outra, fui acompanhado. Não levei o meu chapéu preto, não passei o tempo a escrever e, além disso, o comprimento do meu cabelo foi reduzido a 1/5. Vi 3 caras conhecidas da última aventura. Caras de homens já não invisíveis à memória mas que ainda assim pouco fizeram além de um gesto indistinto com a cabeça. Não me reconheceram, pensei eu, dadas todas as diferenças que acima descrevi.
Quem me reconheceu claramente, apesar de não saber de onde, foi a senhora da mesa do lado. Assim que entrámos olhou-me fixamente e passou o resto do tempo que esteve presente a olhar para mim e a segredar à filha que estava ao seu lado. Não faço ideia de quem seja e duvido que algum dia venha a saber. Calculei que fosse natural visto não sermos clientes habituais da casa. Uma espécie de reconhecimento imediato dos dois antigénios presentes num ambiente assepticamente reconhecido. Mas não. Não foi isso. Ou então não era Alentejana. Os Alentejanos são os outros três que me reconheceram mas, dada a presença de alguém que não pertenceu ao microcosmos da experiência anterior, optaram por aquele silêncio ausente entre comparsas.
Minha Senhora, não sei quem é nem nunca virei a saber, mas tem claramente algo a aprender com os seus conterrâneos. Eles sabem marcar presença ausentando-se, eles souberam aparecer numa noite de Novembro e manter-se desaparecidos num almoço de Fevereiro.
Definitivamente, gosto mesmo desta terra. Não foi a primeira vez que lá fui e sei que vou voltar.
Além disso as presas de porco preto estavam divinais !
Olhão, 16/2 23h45
Olhão, 16/2 23h45
Se há amor não cumprido na minha vida é o amor pela História. História mesmo. A ciência que nos ajuda a conhecer o passado para melhor compreender o presente. Desta vez não estou a falar das estórias que tanto gosto de contar e recontar até ao expoente do insuportável, cumprindo o meu destino genético que o meu pai me legou.
Estando eu em maré de reequilíbrios e de transformações, decidi que não mais viverei com um "amor platónico" a enfernizar-me o juízo, nem com a dúvida do que poderia conseguir se tivesse coragem para arriscar lutar pelo que quero.
Vou voltar a estudar, e desta vez será História. O e-learning criou possibilidades inimagináveis e a American Military University chamou-me a atenção. A atracção dos diferentes cursos é fulminante e a sedução dos mestrados então é irresistível.
Só me falta ter a certeza do reconhecimento da Universidade, juntar 4.500 dólares e decidir se aposto no Mestrado em História Americana ou se no outro que me tirou o sono, o Mestrado em História Militar.
Sei que desta vez nem vou tentar inventar desculpas para não o fazer. Sei-o com a mesma certeza com que sei que sou capaz.
Vou voltar aos estudos porque o saber não ocupa espaço, como me ensinaram há muitos anos. Vou voltar a estudar porque preciso de aprender mais e quero ter mais coisas para poder ensinar. Vou voltar à Universidade, mesmo que com um oceano de distância, porque necessito de contactar com pessoas mais inteligentes do que eu, ou pelo menos que saibam coisas diferentes das minhas, como necessito de oxigénio para as minhas mitocôndrias.
Vou voltar a estudar porra ! Felicitem-me ou façam soar requiems à minha sanidade, não quero saber.
Passeios e Vagabundagens I - Santa Clara de Sabóia
2 comentários Colocado por Nicolae Santos às 12:51As três semanas de afastamento do blog não corresponderam a três semanas de afastamento da escrita. Esta nova coluna de “Passeios e Vagabundagens” é dedicada exactamente aos sítios por onde tenho andado ou por onde passei, e sobre os quais escrevi mas as férreas leis da preguiça adiaram a publicação.
Começo por Santa Clara de Sabóia. Aqui tenho uma das minhas histórias mais carismáticas. Numa madrugada de inverno de 1999, voltava eu de um fim de semana com a namorada no Porto. O comboio azul, como se chamava, saía da Campanhã às 21 horas e deixava-me em Messines por volta das 7 horas do dia seguinte. Nessa viagem adormeci, como de costume, só que dessa vez acordei subitamente com uma paragem do comboio. Acto reflexo, agarrei o saco e saltei porta fora, já com o comboio a arrancar. Enquanto respirava fundo, o meu cérebro começou a processar conscientemente o que me rodeava. Foi nesse momento que vi que onde devia estar escrito “Messines-Alte” estava escrito “Sta Clara de Sabóia”, e na direcção onde deveria estar a minha escola, estava um pocilgo.
A dimensão titânica da minha burrice atropelou-me à velocidade da luz e, enquanto vomitava impropérios contra mim próprio e inventava em voz alta metáforas para a minha estupidez, uma senhora aproximou-se. Depois de me perguntar o que se passava e de eu ter respondido, explicou-me que trabalhava na passagem de nível, que a casa dela era ali perto e que podia ir para lá para tomar o pequeno almoço com o marido e os filhos que deviam estar a acordar. Bem dito, melhor feito. Enfiaram-me pelas goelas abaixo um balde de cevada e umas tibornas tão quentes como maravilhosas. No final dessa experiência religiosa, enrolei-me numa manta e deitei-me num sofá onde voltei a adormecer. Por volta das 10 horas, já com metade da manhã de aulas perdida, meti-me numa automotora vermelha que se queixava de todas as articulações e se deslocava à velocidade das sinapses cerebrais da Lili Caneças e fui para Messines onde a rotina diária me esperava.
Júlia era o nome da Senhora. Nunca mais a vi, mas também nunca me esqueci dela.
Alfa Pendular - 27 /1 - 8h45
Acho que foi uma apoteose que ocorreu antes do começo do início. Há quem diga que aí nasceu deus. Há até quem diga que foi deus que lançou os dados que a tudo deram origem.
Sei que depois desse momento inicial e iniciador de tudo, apareceu o tempo. Foi muito antes de nós, muito antes da nossa capacidade e necessidade de o medir, compartimentar e quantificar, já o tempo existia.
Um dia aparecemos. Aparecemos como fruto de uma evolução perdida nas brumas do tempo e não tardou a que descobríssemos que precisávamos de o controlar para não o temer. Criámos os relógios. Instrumentos que usam o tempo para produzir mais tempo, e mais tempo, e mais tempo. E descobrimos que no fim do tempo, o Amor resiste à morte.
Julgámos obter segurança crendo na existência de um relojoeiro supremo, o dono do tempo, o artesão do infinito. Acreditámos que a sua existência traria o equilíbrio necessário a quem vive preso entre o tempo que passa e o tempo que vem. Desejámos sacudir dos nossos ombros curvados a responsabilidade de viver plenamente, porque não podia haver vida plena não controlando o tempo em que ela se desenrola. E o relojoeiro supremo continuaria a olhar pelo tempo. E os nossos relógios continuariam a usar o tempo para produzir mais tempo, e mais tempo, e mais tempo. E o Amor continuaria a ultrapassar a morte.
Depois descobrimos ainda que podíamos dividir o tempo em passado, presente e futuro. Aí sujeitámo-nos à ditadura da nossa criação e tornámo-nos escravos, não de um tempo, mas dos três. Aí bebemos o fel da perda de um tempo que se esvaiu por entre os dedos e no passado ficou. Aí entendemos a efemeridade do tempo que está a passar. Aí decidimos esperar com ansiedade o tempo que há de vir adiando para um futuro próximo ou distante o que não fazemos hoje, por nós e/ou pelos outros. E os relógios continuam a usar o tempo para produzir mais tempo, e mais tempo, e mais tempo. E o Amor continua a ser mais forte do que a morte.
Sentado numa cama de um hospital sou fulminantemente assaltado pelo percurso que me trouxe até aqui. Com dois comprimidos de sabor horrível a dissolverem-se debaixo da língua e uma porcaria qualquer espetada numa veia olho para um espelho distante revelado por uma cortina que se abriu e não me reconheço. Já não sou quem fui e acho que nunca me tornei no que esperei vir a ser. Julgo não passar de uma contradição cronológica entre tempos perdidos, mas ainda assim, sou eu, em toda a humildade das minhas virtudes e em toda a imponência dos meus defeitos.
Olho para trás e vejo o quê ? Os campos relvados do Alto da Barra estão a arder. A terna placidez da Ria Formosa está a arder. O campus de Gualtar está a arder. A estação da CP da Sra da Hora está a arder. Lagos está a arder. As falésias de Aljezur estão a arder. Por entre o fumo e o fogo, uma nuvem de cinzas envolve-me. Cada uma é um pedaço de memória vivida mas não esquecida. Sorrio com a compreensão póstuma de que essas memórias são apenas quem eu fui, já não são quem eu sou.
Está a chegar a hora. Está próximo o momento de inverter o rumo, de mudar de caminho. É chegado o momento de romper com o paradigma electroquímico segundo o qual cargas eléctricas diferentes se atraem e cargas iguais se repelem. Chegou o tempo de compreender que por muito que dois protões se tentem afastar, quando juntos no núcleo, a força necessária para os separar é infinitamente superior.
Hoje regresso ao futuro. Talvez ainda não regresse hoje, mas pelo menos sei que hoje deixo de me afastar dele. Quando sair daqui, desta cama, deste hospital, desta cidade que nada me diz e à qual me condenei a trabalhar, vou procurar os “meus”. Os que estiverem presentes ficam, os que estiverem ausentes vão, os diletantes, que continuem a diletar nos seus destinos.
O amanhã vai chegar diferente. Sei-o, como sei que os relógios continuarão a usar tempo para produzir mais tempo, e mais tempo, e mais tempo. Só que desta vez também sei que não estou condenado ao eterno e etéreo destino de chegar tarde demais para os deuses e cedo demais para os homens. E continuo a saber que o Amor sobreviverá à morte.
(Faro, 7 para 8 de Fevereiro, entre as 3h00 e as 4h15)
(Faro, 7 para 8 de Fevereiro, entre as 3h00 e as 4h15)
... um Rei que tinha três filhas e quis saber qual delas gostava mais dele".
Assim começou uma "estória" inventada e contada por uma miúda de 12 anos hoje à mesa do almoço. Não a vou reproduzir integralmente, como é óbvio. O que quero mesmo dizer-vos é que ao ser questionada sobre a razão da "estória" inventada, ela limitou-se a dizer-me algo parecido com: "Qualquer esforço feito para te fazer rir ou para te pôr bem disposto vale sempre a pena".
Depois disto, nem sei ainda o que escrever. Sei que há pessoas que continuam a não acreditar em anjos. Sei que ainda há pessoas que não compreendem que existem seres a caminhar entre nós que se sentem bem, que se sentem realizados, que se sentem vivos quando conseguem tornar o momento, o dia, ou a vida dos outros mais feliz.
Eu acredito em anjos. Se vocês já não o conseguem fazer, tenho pena. Por vocês, claro.
Obrigado Sobrinha !!!
Noite terrível. Vómitos, tonturas, dor de cabeça e duas horas verdadeiramente dormidas. Acordei às seis e meia com a maior enchaqueca da minha vida. Parece que bebi a albufeira do Alqueva em bagaço. Tensão arterial estratosférica e mais um vómito à primeira passa de um cigarro.
Se não estou no grau 0, muito pouco falta. Resta-me a consolação que daqui para diante só posso melhorar.
O PC de serviço, depois de algumas ameaças, encomendou a alma ao criador. Estou desde as 9h a olhar para uma planta a vê-la crescer.
Se ontem não estava propriamente bem disposto, hoje o meu ascendente em Leão está à flor da pele.
Por favor ninguém fale comigo. É melhor, acreditem !
Estou cansado. Terrivelmente cansado.
Não consigo perceber o que me aconteceu, isto é, fiz tudo certo no fim de semana. Sexta feira tive uma noite excelente dividida entre o Salvador, o Cantaloupe e o Catita. Jantei, bebi, conversei, foi tudo excelente mesmo. Sábado tive as inevitáveis limpezas e arrumações mas na parte da tarde descansei e preguicei como se não houvesse amanhã. De noite, tive um jantar memorável com amigos e camaradas inesquecíveis.
Domingo, esse dia então foi a cereja em cima do bolo. Foi só acordar e largar-me à estrada para visitar sítios dos quais estava assoberbado de saudades.
Foi tudo perfeito. Tudo fazia crer que a semana ia iniciar com as baterias carregadas. E iniciou. O que é estranho é que bastaram dois dias para me pôr neste estado.
Estou moído, cansado, extenuado, destruído. E só passaram dois dias. Não sei explicar esta sensação. Não sei justificar esta incapacidade para me render naturalmente a uma rotina.
Sei que, por muito que procure paz e estabilidade, só o risco me atrai, só a conquista me impulsiona. Adorava perder de vez este complexo de "peter pan" que me leva a agir de forma adolescente perante os desafios da vida. Adorava ser como 90% das pessoas que conheço e contentar-me com uma doce e calma rotina diária, sem riscos nem medos, sem objectivos nem sonhos. (In)felizmente continuo a sentir-me como um guerreiro à procura de trincheiras para conquistar e dragões para abater. Infelizmente continuo a lutar contra a minha essência, ou a procurar a minha essência, por estradas e caminhos por desbravar.
Olhem, sabem que mais, que se fecunde esta conversa toda. Vou ver o Stargate e tentar adormecer.
Pode ser que acorde melhor, pode ser que acorde diferente. Pode ser que nem sequer acorde. Estou tão farto de mim que já nem desculpas arranjo para manter este texto.
Vou escrever dois mails e dormir.
Boa noite para vocês
Dia de vadiagem. Era inevitável. Parou a chuva, o céu despiu-se de nuvens e não teve vergonha de mostrar o nosso astro rei em toda a sua sedutora nudez.
Houve vontade, houve carro, houve companhia, que mais poderia faltar ?
Dois anos depois da saída de Aljezur, seis anos depois do regresso de Ourique resolvi voltar a um dos meus escapes favoritos para os finais de tarde sem planos ou vazios de destino. Saí cedo, muito cedo para o que é normal num dia de Domingo. O almoço foi pelo caminho, e a chegada foi calma e discreta. Entre Milfontes e Porto Côvo há muito para desbravar. Com a imortal música do Rui Veloso desce-se a pé aquela rua principal que leva à falésia. A rua está ladeada por lojas de recordações, como se fosse possível levar algum pedaço da maior recordação que se pode ter daquela terra, a beleza indescritível de uma paisagem natural bafejada com o dom da eternidade. A proximidade do mar sente-se a cada passo. O cheiro do mar inala-se a cada inspiração.
Porto Côvo é como um entreposto perdido numa fronteira entre dois mundos, mas eu hoje não saí de casa para ver fronteiras, foi para cruzá-las. A ilha do Pessegueiro está ali mesmo ao lado.
No ano em que dei aulas em Ourique costumava fugir para lá com um grupo de meia dúzia de colegas. Jantávamos no restaurante construído em madeira e rifávamos quem seriam os infelizes a estar sujeitos a dieta alcoólica para levarem os carros de regresso. Nessa praia passei uma noite terrível em Fevereiro de 2003, depois de ter saído do velório de um dos melhores amigos que alguma vez tive, e só ao nascer do Sol a abandonei a caminho da escola de Ourique. A praia em frente à ilha é um dos meus santuários. É dos poucos sítios onde me apetece deixar de ser ateu porque gostava mesmo de acreditar que aquilo foi desenhado por deuses e não pelas leis naturais que me enfiaram na cabeça nos anos de Universidade. Poucos são os sítios onde chorei e me consigo sentir feliz. Essa praia é um deles.
O Sol recolhe-se. A tarde termina. O passeio aproxima-se do seu epílogo. Regresso a Olhão aliviado. Foi um dia agradável. Sem saber e sem desconfiar, estava mesmo a precisar deste pedaço de Alentejo com sabor a mar.
Este texto foi escrito a 30 de Novembro, a data do 30º aniversário do The Wall. Por motivos que só o meu tradicional esquecimento poderá explicar ficou sem ser publicado até hoje.
Há uma relação engraçada entre o ano de 2009 e os muros. Festejámos há 3 semanas atrás o 20º aniversário da queda de um muro que foi, e é, símbolo de ignomínia e de cegueira ideológica. Um símbolo de um tempo em que metade do planeta queria destruir a outra metade, única e simplesmente porque ambas as partes tinham formas diferentes de entender a economia, a política e a sociedade.
Hoje, a 30 de Novembro, festeja-se outro aniversário associado a um muro muito diferente. Faz hoje exactamente 30 anos que foi lançado o The Wall dos Pink Floyd. Na minha modesta opinião, o melhor álbum de música alguma vez composto e gravado. O The Wall é muito mais do que um simples conjunto de músicas que aparecem associadas. Em The Wall há muito mais do que músicas que podiam ser ouvidas soltas e sem qualquer associação entre elas. Os Pink Floyd, durante o consulado do Roger Waters como seu líder e principal génio criativo sempre me fascinaram por isso. Nessa brilhante e eterna fase da sua existência, a unidade da sua criatividade era o álbum e não a música. Não os posso considerar musicalmente melhores em relação a outros monstros sagrados do que se convencionou chamar o “rock sinfónico”, foram apenas diferentes. Podemos ouvir uma música dos Queen, ou dos Dire Straits, U2, Police, entre tantos outros, e não ligar ao resto do álbum. Está lá tudo, a letra inspiradora, os acordes brilhantemente compostos e tocados, mas a música é em si o principio e o fim do processo criativo. O álbum é a soma das partes e o brilhantismo das partes faz o todo ser brilhante. Com os Pink Floyd de Roger Waters, a música é uma simples peça que, genial ou não, integra um todo que é muito mais do que a soma das suas partes.
The Wall é composto por 26 músicas. Nem todas conhecidas, nem todas geniais, algumas delas simplesmente normais, umas talvez até sofríveis. Mas o conjunto, esse, é um poderoso instrumento musical que ultrapassa os limites do que é entendido normalmente como um álbum de música. The Wall, no seu todo, é um tratado de Psicologia, um manifesto Sociológico, um guia prático sobre a destruição de uma personalidade. Nele, Roger Waters faz uma viagem introspectiva ao fundo dos seus medos e traumas, usa o seu exemplo para fazer uma analogia, perigosa por momentos, com a forma como é possível alguém auto-destruir-se e tornar-se num agente de hetero-destruição. Vou recapitular, desde o início. Acompanhem-me.
Tudo tem início com In the flesh. É simples, incrivelmente simples. Estamos num concerto em que o vocalista de uma banda canta uma simples música que termina com “If you wanna find out what's behind these cold eyes you'll just have to claw your way through this disguise.” Vamos ver o que esconde ele por trás do disfarce ? Vamos. Música seguinte, Thin Ice. A transição é feita ao som de um avião a despenhar-se. Representa a morte do pai de Roger Waters na 2ª guerra mundial, morte essa que ocorreu ainda antes do seu nascimento. É o momento fundador da sua vida, o 1º e o maior dos seus traumas. Depois do despenhamento e da morte, vem o choro do bebé, morte e nascimento, de braços dados em direcção ao futuro. A letra é terrivelmente premonitória, se te lanças numa vida pública terás sempre o olhar perscrutador de uma infinita multidão, o the thin ice of modern life não tem contemplações para traumas ou falhanços. Vales pelo que fazes e pela forma como ages. As desculpas, essas não contam, afundam-se nesse thin ice mais depressa do que as podes ver. Vem de seguida o 1º another brick in the wall. Mais uma vez a história biográfica do seu pai que atravessou o oceano e deixou para trás apenas memórias. Que oceano ? o que o levou para os campos de batalha de uma Europa dilacerada pela guerra, ou apenas o oceano mitológico que separa a vida da morte ? Daddy, what'd'ja leave behind for me?!? Nada, nada a não ser uma fotografia no álbum familiar. Com isto começam a ser colocados os primeiros tijolos na parede, uma parede veremos crescer e fortalecer, uma parede que veremos completa, mas isso mais para a frente. Por agora, basta saber a razão por que teve que ser construída. No início não passou de um trauma, depois veio tudo o resto. The Happiest Days of our Lives e Another Brick in the Wall Part 2 aparecem em conjunto. Uma viagem a um modelo de educação hoje ultrapassado mas que imperou durante décadas. A educação como um gigantesco elemento formatador da personalidade. A Escola como instrumento de redução dos alunos a meras amebas, como pequenas peças de um Taylorismo social. A destruição da criatividade, a imposição do denominador comum extraordinária e terrivelmente metaforizadas no filme com o mesmo nome do álbum por um gigantesco picador de carne em que os rostos individuais são substituídos por máscaras indistintas de criaturas cuja alma foi sacrificada por um pretenso bem comum. Não adianta gritar We don't need no education We dont need no thought control No dark sarcasm in the classroom Teachers leave them kids alone, a máquina tem que funcionar e, do trauma deste sistema educativo, mais tijolos são colocados num muro cada vez mais alto. De seguida vem Mother, agora deixamos as pressões sociais e voltamos para dentro de casa. À morte prematura do pai, à opressão do sistema educativo junta-se agora a super protecção materna. Todos os medos brotam na presença desta mãe super protectora que se torna também castradora. A todas as questões, sempre a mesma resposta Mama will keep baby cozy and warm, não sem que antes o impeça de voar, mas talvez o deixe cantar. A mãe como potenciadora de medos, como espécie de parasita que se alimenta de inseguranças sempre exacerbadas para manter junto de si o seu filhote. A mãe que vigiará sempre as suas namoradas, a mãe que passará os seus próprios traumas e medos para o filho, a mãe que tudo fará para que o seu filho não saia debaixo da sua asa. No fundo, uma mãe que não fará mais do que aumentar o muro porque, em última análise, isolando-o da sociedade e do mundo em geral, mais facilmente exercerá o seu controle. Depois vem Goodbye Blue Sky, mais um regresso ao passado e a um tempo em que a promessa de paz foi substituída por uma diária ameaça de guerra. Talvez uma recordação dos bombardeamentos nazis da 2ª guerra mundial, talvez um lamento de uma geração que nasceu e cresceu sob ameaça de uma guerra nuclear. Empty spaces é um pedido de ajuda. Como conseguirá ele completar os espaços ainda abertos no muro ? Será que o muro faz sentido ? Poucas dores há tão incisivas, poucas dúvidas há tão fortes como as que nos assaltam a meio de um caminho escolhido mas ainda não terminado. Estamos na transição para a idade adulta, estamos na procura e na descoberta do caminho e Young lust chega logo de seguida como premonição das relações futuras com o sexo oposto. Desta vez há uma procura que depressa se torna em desesperada necessidade de companhia. Estará no corpo de uma mulher a redenção para os traumas e inseguranças tão claramente manifestados ? Não !!! Chegamos logo depois a One of My Turns. O amor, ou pelo menos a sua procura desesperada torna-se em mais um peso, em mais um falhanço, em mais um trauma. No filme a cena é representada de forma absurdamente genial por Alan Scarfe em que uma dança de sedução termina com uma penetração metafórica em que um órgão masculino é devorado pelo feminino depois de acontecer. O predador torna-se presa. O homem na perseguição do seu desejo e da sua necessidade vira presa manipulada pelo objecto da sua sedução. O verdadeiro sexo fraco manifesta-se ao cair nessa eterna e atroz armadilha que cedo ou tarde faz dos homens instrumentos das suas mulheres, como antes o tinham sido das suas mães. Day after day, love turns grey Like the skin of a dying man. Night after night, we pretend its all right But I have grown older and You have grown colder and Nothing is very much fun any more. No fundo, são apenas mais tijolos para um muro cada vez mais alto. Nem no amor há redenção pois até já ele está conspurcado pelos jogos e estratégias de uma vida cada vez mais complexa. Já nem sequer o sonho de um amor puro e completo resiste, nada resiste à ditadura do dia-a-dia, nada sobrevive à atracção pelo poder que até numa relação amorosa vive sob a forma de saber quem é o mais forte, quem é que domina, quem é que manipula e gere a realidade. Da descoberta desta triste realidade vem o grito de revolta, do grito de revolta vem o ataque de raiva depressa aplacado por um Don't Leave Me Now. É a humilhação suprema. A súplica a alguém cuja presença é danosa para que regresse é um dos pontos mais baixos a que alguém pode chegar. O muro foi crescendo, o cerco está a fechar-se mas em última análise ainda há um pedido desesperado de companhia. Fica, não me deixes só, mesmo que me faças mal, a iniquidade da tua presença é preferível à solidão. É, se o podemos descrever assim, o grito de um corpo já sem alma para que alguém através da sua existência substitua a solidão por uma companhia tortuosa. O cerco está a fechar-se e já nem interessa se a presença de alguém vai fazer bem ou mal, o que interessa é a necessidade da presença de alguém. Mas ainda não terminou. Não há salvação para quem suplica companhia. A súplica é sinal de fraqueza e, em relações entre sexos, a fraqueza cheira-se à distância. Vem o último another brick in the wall. Depois de tudo ter falhado, depois do trauma do desaparecimento prematuro do pai, da opressão do sistema educativo, da super protecção castradora da mãe, dos relacionamentos amorosos falhados, o muro que cresceu, tornou-se imponente. Já não há braços ou abraços que salvem, já não há drogas que acalmem, há apenas tijolos. Mais tijolos, cada vez mais empilhados, cada vez mais enterrados numa alma que já só existe para se auto-destruir. Good bye cruel world. Este é o momento do isolamento. Já não há nada que digam ou façam, o muro está completo. O isolamento em relação aos outros finalizou, há agora uma imensa e enorme muralha que nos separa de tudo o resto, há agora uma defesa impenetrável à influência dos outros. Metade do caminho está trilhada, agora seguimos por um itinerário por cartografar. Agora, com esta estrutura defensiva à nossa volta podemos ter a certeza de que não seremos ameaçados, que não seremos tentados a imaginar uma vida em que os outros façam de facto parte dela. Somos finalmente senhores do nosso destino, mas a que custo ? Sabê-lo-emos de seguida.
O segundo CD inicia com Hey You. É uma espécie de ressaca. Finalizado o muro, consumada a separação a que o individuo se votou em relação aos outros, aparece agora uma estranha tentativa de comunicação com o exterior mas com resultado mais do que previsível. But it was only fantasy.The wall was too high, As you can see.No matter how he tried, He could not break free.And the worms ate into his brain. O muro está muito alto e já nada passa, há no entanto ainda um novo pedido de Socorro em Is there anybody out there, novamente sem resposta. Quem constrói muros tem que aprender que por muito que defendam no início, cedo ou tarde acabam por isolar. Quem vive obcecado em defender-se de tudo e de todos, termina afastado desse tudo e desses todos que podem de facto fazer com que a vida mereça ser vivida. Is there anybody out there termina com um solo de viola de David Gilmour e, ao som de comerciais de TV entramos em Nobody home. Agora é a fase da auto-comiseração. Vemos o indivíduo na fase de sentir pena de si próprio. No filme a cena é representada por ele sentado em frente de uma TV enquanto a letra vai vomitando todo o seu longo currículo de qualidades que deveriam fazer com que qualquer outra pessoa se quisesse dele aproximar, mas a realidade continua a ser que com um muro à volta, nenhuma aproximação é possível. A música termina com When I try to get through On the telephone to you There'll be nobody home. Fica o lamento. Quando tenta telefonar, ninguém está em casa. É o lamento dos covardes, fazer o mínimo para poder justificar que fez e, não funcionando, a culpa é dos outros, os que não têm muros à sua volta. Construído o muro, falhadas as tentativas inócuas de sair dele ainda a tempo, caminhamos agora a passos largos para os capítulos finais. Vera é mais uma reminiscência da 2ª guerra mundial. A alusão a Vera Lynn, a cantora inglesa que cantava aos soldados “We will meet again” e na sequência dessa música “Bring the boys back home” trazem outra vez para o centro das atenções o trauma no qual toda a personalidade de Roger Waters foi alicerçada, a morte trágica do seu pai. Estamos agora prontos para mergulhar em Confortably Numb, a mais perturbante e envolvente música do álbum. Nela tudo se mistura, o passado e o presente, a dor e a mágoa, o medo e a solidão. Assistimos a um diálogo entre alguém que finalmente apareceu para tentar salvar os restos de uma personalidade torturada e o indivíduo que fala num tom já incompreensível, e apenas para se recordar de episódios antigos dos tempos de criança em que o muro não era ainda um destino. The child is grown, The dream is gone .I have become comfortably numb. A criança cresceu, os sonhos morreram, já nada há que possa ou mereça ser salvo. Ao som de um dos mais memoráveis solos de guitarra que a história da música conheceu, termina finalmente a destruição do indivíduo. Fechar-se num muro para se afastar do mundo não chegou, não chega. Faltava ainda o resto. Faltava passar de oprimido a opressor, faltava passar de vítima da destruição da sua personalidade em agente de destruição de uma sociedade que renegou e da qual se isolou. The show must go on não passa de um breve momento de calma antes da tempestade, como se tratasse de uma inspiração forçada antes de um mergulho. In the flesh está de volta. Regressamos ao início mas desta vez sabemos tudo o que aconteceu. O concerto tem que continuar mas apercebemo-nos facilmente que já não estamos num concerto de música mas sim num comício. A letra de In the flesh é claramente panfletária e representa o asco com que as asquerosas ideologias de extrema direita vêem o mundo. Está lá tudo, o ódio racial, a perseguição religiosa, a homofobia primária. If I had my way, I'd have all of you shot! Se ele pudesse matava-os a todos, no entanto, não sem antes lançar ao vento uma última ameaça. Run like hell é mais uma peça de ódio contra tudo. Corram, fujam para onde puderem porque uma nova força está na rua e vai destruir tudo e todos os que se lhe opuserem. Já não há dúvidas nem medos, inseguranças ou fraquezas, há apenas um ódio visceral e uma raiva assassina contra uma sociedade que passou de opressora a objecto de opressão. É assim que entramos em Waiting for the worms, a apoteose da loucura. É a marcha triunfal dos vermes ao som de acordes militares. Todo o discurso reflecte o ódio e o desprezo pelos outros, por todos os outros, pelos que não pensam da mesma forma. É um discurso político assente nas mesmas ideias tão caras ao extremos do espectro político. O discurso da moralização, da limpeza racial, do ódio aos imigrantes, do racismo acéfalo. O discurso da pretensa pureza de quem o profere e não aceita sequer a existência de formas de pensar diferentes. A marcha triunfal prossegue vomitando as alarvidades dos vermes mas subitamente aparecem vozes de contestação. Inicialmente tímidas mas em crescendo tornam-se ensurdecedoras ao ponto de abafar o próprio verme no seu palanque. Tudo termina com um desesperado grito de STOP que faz a transição para a próxima música com o mesmo nome. A antiga vítima transformada agora em carrasco lança-se numa cela onde apenas pede para ir para casa e para saber se durante todo esse tempo foi verdadeiramente culpado. Estamos a chegar a The trial, o último capítulo, o fechar da cortina. The trial é o final lógico e esperado do álbum, com Roger Waters a ultrapassar os limites do possível, é uma peça musical inadjectivável com uma orquestra conduzida por Michael Kamen como pano de fundo. The trial é como o nome indica, o julgamento do indivíduo, toda a sua vida é passada em revista, todas as principais personagens regressam. É necessário descobrir se ele é ou não culpado por ter construído o muro, é fundamental saber se há ou não perdão para quem se isola da sociedade, é imperioso descobrir como se pode punir alguém que escolha esse caminho. O julgamento inicia com o promotor público a considerar indesculpável que o réu se atreva a demonstrar sentimentos e abre depois caminho ao professor. Esse vem a tribunal lamentar-se de não ter podido ir mais longe na educação porque os bleeding hearts and artists estavam sempre a defender os direitos das criancinhas selvagens. Há uma pequena pausa para um depoimento do réu completamente desfasado da realidade que segue presente ao seu lado e depois voltamos com mais dois depoimentos. Desta vez aparece a esposa também a lamentar-se da falta de diálogo e da distância que o réu cavou na sua relação e, para terminar, quem não senão a mãe a repetir o eterno discurso da super protecção que tentou dar para que ele não se metesse em apuros. The trial é a maior hipocrisia alguma vez cantada, é uma espécie de inversão do ónus da prova em que vemos os causadores da fuga e do isolamento do indivíduo a carpir as suas lágrimas de crocodilo numa esperança desesperada de se redimirem dos seus erros, mas ainda não acabou, falta o juiz. Num segundo depoimento o réu já declara abertamente a sua loucura e pergunta apenas pela porta por onde entrou para dentro do muro, de pouco serve, a decisão final do juiz é firme e inapelável. Depois de todos os depoimentos ouvidos, não há dúvida, o réu merece a pena máxima possível e, dado que manifestou o seu maior medo, é condenado a ter que viver entre os seus semelhantes. O muro tem que ser destruído urra selvaticamente o juiz acompanhado por um coro gigantesco de vozes anónimas. Falta ainda o epílogo, Outside the wall. Uma mensagem final de amor e confiança. Por muito altos que sejam os muros, por muito que queiram fugir ou isolar-se, do lado de fora existirão sempre pessoas para quem o seu amor chega para desafiar o frio da rocha e para, mesmo com sofrimento envolvido, tentar demolir essas ridículas barreiras criadoras de solidão.
All alone, or in two's,The ones who really love you Walk up and down outside the wall. Some hand in hand And some gathered together in bands.The bleeding hearts and artists Make their stand. And when they've given you their all Some stagger and fall, after all it's not easy Banging your heart against some mad bugger's wall.
Esta é uma das imagens mais bonitas que vi nos últimos tempos. Se olharmos para lá dela e tentarmos ver a simbologia, está lá tudo. O Amor entre a Liberdade e a Justiça. É tão simples quanto isso, apesar de todas as dificuldades que sabemos existirem nesse caminho.
Nunca conheci ou vivi historia de Amor tão difícil. Não tenho no meu currículo nada que se assemelhe ao percurso sinuoso e tortuoso que elas têm seguido.
Quando aprendi o conceito de Democracia, ensinaram-me que esse estava intimamente ligado a esta história de Amor, mas, com o passar do tempo, descobri que são muitos mais os interessados no falhanço do que no sucesso desse Amor nada platónico que existe entre ambas.
Recentemente, com a aprovação do casamento entre homossexuais tive um raio de luz de esperança. Subitamente, senti que a Liberdade e a Justiça se encontraram e mostraram que, apesar de todas as dificuldades, poderiam de facto ser felizes juntas. Foi só um epifenómeno. Muito caminho há ainda para percorrer.
Diz-se que as mais lindas histórias de Amor são aquelas nunca realizadas. Diz-se que o Amor não é capaz de sobreviver à ditadura do dia-a-dia. Recuso-me a acreditar nisso.
A Liberdade e a Justiça têm um longo caminho pela frente, caminho esse no qual somos todos responsáveis. Recentemente deram um passo importante no cimentar da sua relação. No futuro, continuaremos a ser nós os principais actores nesta linda história de Amor. Espero que estejamos à altura do desafio.
PS - Imagem recolhida do blog Random Precision
Cumpriu-se recentemente o 50º aniversário da morte de Albert Camus. Foi um dos grandes escritores do século XX, e talvez um dos primeiros a dissociar-se da onda de simpatia para com a União Soviética depois do final da 2ª guerra mundial. Segundo ele, a simpatia natural pelo sofrimento do povo Soviético às mãos dos nazis não podia apagar o facto de o seu regime ser tão torcionário e sangrento quanto fora o de Hitler.
Para lá destas considerações, guardo de Camus uma das minhas citações preferidas: "A honra é a poesia do dever". Podemos cumprir o nosso dever em todas as facetas da nossa vida, é de esperar que o façamos. Mas também podemos ir um pouco mais além. Podemos, e no meu ponto de vista, devemos, viver de forma a que possamos ter honra, acima de tudo o resto, em quem somos, no que construímos, nos que abarcamos.
Domingo à noite, esqueci-me desta citação. Hoje que a recordo, apenas poderei tentar corrigir o resultado de tão infeliz esquecimento.
Obrigado Albert e não me leves a mal ter-te deixado, momentaneamente, para trás.
É natal. Independentemente da simbologia religiosa que nada me diz, estamos numa época do ano muito especial. O natal deixou de ter piada há já alguns anos, pelo menos para mim. O tempo foi passando, eu fui envelhecendo, a minha família foi-se desarticulando e dois dos meus avós já por cá não andam.
À medida que a cronologia prosseguiu a sua cavalgada imparável, nem eu nem a minha irmã abastecemos a família de novos rebentos. O natal tornou-se numa espécie de anacronismo alimentado pela ditadura do calendário, mais do que por um verdadeiro espírito de união familiar.
Há quatro anos atrás, tudo mudou um pouco. Um casal de amigos, de grandes amigos, resolveu que a minha presença era importante, necessária, essencial, para que a noite de 24 para 25 de Dezembro deles fosse completa. Assim foi e este ano, pela quarta vez consecutiva, os últimos momentos do dia 24 de Dezembro foram passados com a família Carvalho.
Depois de passar a noite com parte da minha família, fugi para uma casa modesta e imponente que fica na zona histórica de Olhão. À entrada lá estava o "camarada Carvalho", como o trato há já muitos anos, e a Sidóninha. São os patriarcas, os faróis e os alicerces de um clã que ultrapassa todos os limites do compreensível no que diz respeito a amizade. Todos os anos juntam filhos e filhas, noras e genros, netos, bisnetos e até alguns amigos párias, entre os quais me incluo.
Aquela casa é uma orgia de alegria, um vendaval de amizade, um reino de amor e um império de carinho e de ternura. Na casa dos Carvalhos redescobri que uma simples noite pode justificar a existência de todo um ano. Todos cabem numa mesa, que mesmo limitada pelas leis da Física, é infindável pelas regras dos sentimentos.
Todos os anos há algo de novo para chorar. Uma doença de uma criança, Uma ameaça de perdição que paira sobre a cabeça de um adulto, um divórcio traumático ou um qualquer erro de percurso ou falta de rumo. Todos os anos há uma fraqueza inerente a estes seres, que por serem humanos, insistem em não acertar à primeira tentativa. Mas, todos os anos, os Carvalhos fazem uma festa. Fazem questão de desafiar este cruel destino comum aos mortais, que é a imperfeição. Teimam em olhar a vida nos olhos e dizer-lhe que não há nada que ela lhes jogue à cara que fique sem resposta.
Na casa dos Carvalhos existe mesmo Natal. É um exército de crianças que se alimenta da expectativa da chegada do pai natal, é o companheirismo que têm tatuado na pele, a amizade que lhes brota dos poros.
Lembro-me claramente de duas árvores de natal na minha vida. Uma verde e velhinha que alimentou o imaginário da minha infância em Oeiras. Outra branca que a minha mãe enfeitava com bolas vermelhas e enfeites dourados, já em Olhão. Ambas eram coroadas por uma estrela.
Precisei de viver 30 anos para descobrir uma árvore de natal com muitas, muitas estrelas. Todos eles, todos os Carvalhos são uma estrela.
Muitos há que têm um pinheiro de natal. Eu tenho um Carvalho de natal.
E é tão lindo !!!
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