Encruzilhada


Contrariamente ao que seria de prever, foi completamente imprevisível. Os caminhos divergentes convergiram na circunstância menos natural e mais inesperada possível. Encontraram-se, apenas para se afastarem. Seguiram separados sem se perder de vista, continuaram juntos em direcções diferentes.
Não foi fácil, não era suposto ser. Um sabia para onde ir, apesar de não ter bem a certeza como, a outra ainda não se tinha reencontrado, porque o sofrimento tem o condão de avariar todas as bússolas.
Um dia os olhares beijaram-se, pouco tempo depois os corações abraçaram-se e foi poucos momentos antes da entrega esfomeada dos seus corpos que o som da inevitabilidade se fez sentir.
Hoje é fácil olhar para trás. É incrivelmente simples entender cada um dos nossos erros como uma peça de um puzzle que montámos sem a imagem original para nos orientar. Hoje, e ainda bem para nós, podemos facilmente reproduzir palavras ditas como se fossem citações de filmes, porque o nosso filme acabou por ser um sucesso contrariamente às expectativas iniciais.
Trilhámos um caminho por cartografar, desenhámos vontades em batidas do coração, esculpi o teu rosto em nuvens e pintaste a minha dedicação em todas as pedras da calçada que pisámos quando caminhámos em direcção ao infinito.
Juntos fomos muito melhor do que separados. Aprendemos a conhecer, respeitar e viver os limites de cada um. Sofremos por não ser capazes de amar tanto como a nossa vontade.
Guiei-te quando não sabias o rumo, seguraste-me sempre que passei cheques de vontade que a minha capacidade não foi capaz de pagar. Travámos batalhas e vencemos guerras, desafiámos o impossível e destruímos todas as probabilidades adversas que nos foram impostas.
Insistimos quando era razoável desistir, amámos quando era provável odiar, vivemos quando era possível fenecer, lutámos quando era necessário render. Fomos e somos mais do que dois, o que criámos e construímos nunca poderia ser obra de simples mortais.
Tudo o que o mundo tinha para nos jogar à cara, jogou, tudo o que podia correr mal, correu, mas nada disso foi suficiente. Sempre soubeste que comigo estavas segura, que comigo serias protegida, que ao meu lado não existiria sombra de ausência, de traição ou de abandono. Eu, pelo meu lado sempre tive a certeza que um sorriso teu seria a minha redenção, que uma palavra seria um bálsamo, que aninhado ao teu corpo voltaria a ser invencível, fosse o que fosse que a vida me jogasse às trombas.
Foi por tudo isto que vencemos onde muitos falharam, foi por causa disto que nos tornámos símbolos, estátuas, monumentos de coisas com que todos sonham e poucos têm a coragem de verdadeiramente perseguir.

PS – Este texto será escrito daqui a 20 anos como comemoração de algo que acontecerá daqui a uns meses. Estou em pulgas para ver a tua reacção.

Bruxaria

Neste dia, em 1775, ocorreu na Alemanha a última execução de uma mulher acusada de bruxaria. As perseguições a mulheres sob esta acusação, levadas a cabo pela igreja, ou com a conivência desta, foram dos crimes mais bárbaros da história da humanidade.

Como se não bastasse o ridículo da acusação, e a estupidez das penas aplicadas, há em todo este contexto algo que me choca verdadeiramente. Um dos grupos de mulheres consideradas naturalmente “bruxas” eram as ruivas, por causa da sua cor de cabelo. Nunca se vai saber a quantidade de ruivas que foram queimadas sem justificação, no entanto, a eliminação física dessas mulheres, a esmagadora maioria das quais em idade fértil foi para mim uma das situações mais hediondas de sempre, porque impediu a propagação dos genes responsáveis pela mais bela de todas as cores de cabelo.

Há erros que se pagam caro !

Diálogo estranho

Ele - "Então posso concluir que estás apaixonado"?
Eu - "Podes concluir o que quiseres".
Ele - "E achas que vai correr bem"?
Eu - "As hipóteses de nos juntarmos são muito baixas. Se nos juntarmos, as hipóteses de a coisa correr bem são extraordinariamente altas".
Ele - "Então o quê que vais fazer"?
Eu - "O mesmo de sempre".
Ele - "Porquê"?
Eu - "Porque estou certo. As always".

Fernando Nobre

Acordo hoje com o Facebook inundado de comentários escandalizados pela opção de Fernando Nobre de aceitar, como segunda escolha, ser o cabeça de lista do PSD pelo círculo eleitoral de Lisboa. Em relação ao tema, tenho obviamente algo a dizer, apenas duas coisas.
Em primeiro lugar, Nobre tomou a decisão de concorrer a um cargo político em nome de um partido. Não vejo nada de ilegal, indecente ou imoral nisso e, considero que a onde de ataques que está a ser alvo, apenas mais um episódio na já longa resma de ofensivas populistas e abjectas contra os que escolhem os partidos para fazer ouvir a sua voz. Cada vez falta menos para pedirem a ilegalização dos mesmos, não percebendo esses iluminados, que a Democracia pode ser melhor se não depender só dos partidos, mas sem partidos não há Democracia.
Em segundo lugar, deixem-me dizer que Nobre só enganou quem quis ser enganado. Fui um dos seus potenciais eleitores até ele começar a falar diariamente, e cedo percebi o que ali vinha. Quem se sente defraudado foi porque acreditou que toda aquela verborreia apartidária/anti-partidária não era apenas um pedido de colo.
Esse é o vosso drama. Querem tanto a destruição do sistema político-partidário que seguem o primeiro tipo que vos aparece à frente a prometer uma vida bela e própera sem a canalha partidária. Depois apanham pela frente o que eles verdadeiramente são, ambiciosos, com poucos escrúpulos e que usam o populismo para evitar os mecanismos de selecção que, nem sempre funcionando bem, os partidos aplicam aos seus militantes.
"A história repete-se, primeiro como tragédia, depois como farsa" e quem não compreendeu o que lhe aconteceu no passado, estará condenado a repeti-lo. Deixo-vos estas citações, na expectativa de ver quem será o próximo príncipe encantado montado num cavalo branco que vão seguir na sua cruzada para acabar com os partidos enquanto espera ser canonizado. O último que conseguiu usava um par de botas e atrasou o país 48 anos.

PS - Obrigado Joana. Foste a primeira a avisar-me.

Bracara Augusta

1h50. Depois de uns metros de travagem, o comboio pára. Abrem-se as portas, um frio medonho rasga-me os poros já adormecidos pelo sono.
Rezam as lendas, acompanhadas por alguns factos clínicos, que um dos sintomas frequentes da hipotermia é o adormecimento. Como se o frio servido em excesso fosse desligando um por um todos os nossos interruptores até que a morte avance lenta e inexorável para nos libertar. Acredito que seja verdade se bem que este frio Bracarense é tórrido e não glacial.
Bastou pôr os pés fora da estação. Bastou inspirar fundo. Bastou fechar os olhos. Estou de volta a um local de onde nunca verdadeiramente saí, mas tive a sorte de me afastar. Assim todos os reencontros são mágicos e toda a ausência quase insuportável. Faz parte da condição humana valorizar o que se perdeu, o que fugiu, o que não se tentou conquistar.
9h30. Depois de um banho debaixo de um chuveiro a expelir água à temperatura do magma, estou pronto. Estou em Nogueira, tenho o centro de Braga numa direcção e a casa do Miguel em Escudeiros, na direcção oposta. Sigo para Escudeiros. São uns 8 ou 9 km que não me incomodam nada. O frio já nem sequer merece o estatuto de incógnita nesta equação.
Andar a pé por estes lados é como embarcar numa viagem ao passado. Andei, corri e palmilhei todas as estradinhas deste concelho, e mais do que muitas vezes. Há mais uma estrada aqui, mais um viaduto acolá, mas o essencial mantém-se imutável. Esta terra continua cheia de Minhotos, abençoados sejam. Pela sua simpatia, pela forma como sorriem e cumprimentam quem não conhecem, nem querem conhecer. Abençoados sejam pelos sorrisos que são tão quentes como o frio que os cerca, abençoados sejam por conseguirem manter as casas sempre abertas para o próximo e o distante. Abençoados sejam pelo seu sotaque maravilhoso que devia ser património da Humanidade.
Vir a Braga no inverno é ter uma aula prática de como o calor humano é sempre mais forte do que o frio atmosférico. Vir a Braga no inverno é inverter a vasoconstrição que nos arroxeia a pele à custa da dilatação do coração que às vezes parece querer rebentar quando se encontra um rosto conhecido, um local onde se foi feliz, uma pedra onde se sentou, riu, chorou ou viveu. Esta cidade está inundada de memórias que vão de menos infinito a mais infinito. Esta cidade onde passei mais do que sei explicar mas muito menos do que ainda quero viver.
Na noite de 29 para 30 de Setembro de 1992 vim de comboio a caminho de Braga para me matricular na Universidade do Minho. Na altura deixei tudo e todos para trás e pensei algo como "vou ali tirar um curso e já volto para casa". Nunca teria adivinhado na altura que me estava a dirigir a tudo o que uma casa deveria ser.

Pisei-te

Foi tornado público o relatório Pisa 2009 elaborado pela agência governamental OCDE. De acordo com o relatoriado, Portugal “registou uma evolução impressionante nos resultados da avaliação de alunos” tendo sido dito que "O que é mais interessante nos resultados de Portugal é que o salto foi conseguido sem sacrificar o equilíbrio dos diferentes níveis de alunos. Não houve declínio no topo para se conseguir a melhoria na base". Como podem calcular, o delírio não fica por aqui, tendo mesmo os jograis que escreveram esta ode, dito que a melhoria de resultados "pode ser explicada em primeiro lugar pelas políticas seguidas nos últimos anos”.

Já estou a imaginar o que se seguirá. Falanges de virgens vestais à desgarrada com cardumes de Ulíssicas sereias a protestarem contra as conclusões de tão ignóbeis analfabetos. Regimentos de professores martirizados na cruz da avaliação incipiente a que foram condenados, a explicar os seus argumentos tautológicos, redundantes e repetitivos, segundo os quais estes resultados não passam de uma batota administrativa imposta por terroristas ministeriais que atacaram ao volante de aviões de papel as torres do rigor e da exigência no ensino.

Como era bom que Proust estivesse errado e que o tempo que passou não estivesse de facto passado. Como era bom o antigamente em que se podia defender a universalização da entrada no sistema de ensino mas o elitismo na saída do mesmo. Como era bom que a escola se abrisse à sociedade mas barrasse a entrada da sociedade nela própria como um falo violador da sua pureza original.

Há, quanto a mim, duas formas de encarar o ensino, o ensino democrático e o ensino elitista. Podemos organizar o sistema de ensino para formar os melhores dos melhores perdendo muitos pelo caminho como se fossem “baixas de guerra” ou “danos colaterais”. É uma opção que considero tão errada como a rigidez do losango de meio campo do Paulo Bento. A aposta nesta estratégia de elite, defendida por muita gente de esquerda ideologicamente asséptica, recusa-se a compreender que é impossível exigir o mesmo a todos os alunos, recusa-se a aceitar que é errado formatar todas as crianças pela mesma bitola e, se ainda aplicada, faria das escolas tubos de ensaio cheios de caos colocados num vórtex. Há outra forma de olhar para as coisas, há uma forma de tentar levar o sistema de ensino às reais necessidades dos alunos. É uma maneira muito mais difícil de agir, é uma estratégia tão directa como o traçado do IP5 mas certamente mais justa para as crianças, sim porque por escandalosamente real que seja, é para elas que tem que estar vocacionado qualquer sistema de ensino. Nesta forma democrática de ver a escola tem que ser assumido que nem todos os alunos querem ser médicos ou engenheiros, nesta forma de ver as coisas tem que ser aceite que muitas das crianças nem sequer na escola querem estar, mas, a escola tem que dar resposta ao maior número possível delas. Esta forma de ver o ensino obriga-nos a apostar no ensino profissional para tentar recuperar de um crime com mais de 30 anos que foi o encerramento das antigas escolas comerciais e industriais.
Diversificando o leque de ofertas aos nossos alunos, aumentando o número de cursos profissionais, destruindo o mito igualitário que imperou demasiado tempo, poderemos ter uma escola realmente universal, inclusiva e democrática, isto é, na minha opinião, tão certo como o quadrado da hipertenusa ser igual à soma dos quadrados dos badamecos.

Devêmo-lo a todos. Aos pais que se interessam e participam, aos professores que dão o litro, a tonelada e o quilómetro, aos alunos que se esforçam. Devêmo-lo ainda a todos os Portugueses, já que foi o dinheiro dos seus impostos que em 15 anos pagou a explosão que houve no número de bibliotecas escolares, que apetrechou laboratórios, construiu pavilhões desportivos e que foi investido na maior revolução tecnológica vista em qualquer sistema de ensino europeu.

Abaixo assinado

Venho por este meio manifestar a minha total e absoluta solidariedade para com os Juízes do nosso país, no que respeita à decisão de deixar de atribuir o subsídio de residência de 600 euros, tendo o mesmo passado a ser incluído no seu vencimento.

No meu ponto de vista esta medida é brutalmente lesiva da dignidade pessoal, profissional, cooperativa e gramatical dos mesmos, já para não dizer que é selvaticamente discriminatória. Neste sentido, venho por este meio exigir ao Governo que trate todos os Portugueses da mesma maneira para que uns não se sintam perseguidos ao contrário dos outros.

Caso existam Portugueses que se oponham ao facto de passar a receber, incluído no seu salário, os 600 euros do antigo subsídio de residência que nunca tiveram, manifesto a minha disponibilidade para ser sacrificado sozinho no altar da justiça fiscal.

Respeitosamente

Sérgio Nicolae

Diário - 11 de Novembro

Em 1215 um concílio decretou a doutrina da transsubstanciação, o que traduzindo quer dizer o processo através do qual o pão e o vinho são convertidos na carne e no sangue de cristo. Muitos anos mais tarde Embden e Meyerhof descobriram finalmente todos os passos do processo através do qual o pão e o vinho são produzidos, para os leigos, a Fermentação. Mais uma vez a religião precedeu a ciência e a ciência corrigiu a religião.

No ano de 1889 Washington, depois de General, Presidente e Capital, foi admitido como Estado integrante dos Estados Unidos da América numa acumulação de funções sem precedentes na história do país.

1918 viu o dia 11 de Novembro marcar dois acontecimentos importantes. Foi o dia de independência da Polónia e foi o dia em que se assinou o armistício que conduziu ao final da 1ª guerra mundial. Como todos sabem, o final da 1ª guerra mundial deu origem não a um tratado de paz mas a uma declaração de guerra contra os já vencidos. 27 anos depois existiam cerca de 55 milhões de pessoas que gostariam que isso não tivesse acontecido.

Em 1926 foi aberta a estrada que mais quero percorrer na vida. É a mítica estrada 66 que liga as duas costas americanas.

Para finalizar, em 1975 foi neste dia que o país que me viu nascer celebrou a sua independência. Nessa altura já estava muito longe de Angola, num apartamento perto de Oeiras e não há registos familiares que confirmem que eu tenha feito algo de diferente do normal. O mais provável é mesmo que tenha festejado a data mamando, borrando-me todo e dormindo.

Enxovalho

É assim amiguinhos(as). Há dias lixados e ontem foi um deles (futebolisticamente falando porque de resto foi um dia maravilhoso).
O meu Benfica foi enxovalhado sem apelo nem agravo, e ainda por cima às mãos do seu principal rival. Não tenho por hábito inventar desculpas, não tenho como forma de vida o atirar para cima de terceiros responsabilidades que não lhes cabem. Não serei visto a fazer o papel que muitos fizeram o ano passado, enterrando em túneis ocultos a explicação para uma época soberba da minha equipa.
O Benfica este ano está inseguro, triste, vazio de ideias e sem a alma que teve o ano passado. Ao invés, o Porto espalha classe e crença pelos campos, inunda a sua vontade de jogar e ganhar, apaixona os seus adeptos, e todos os adeptos de bom futebol. Sinto-me no sétimo círculo do inferno porque vejo os meus rivais a fazerem o que a minha equipa fez o ano passado. Venceram, venceram bem e mereceram o resultado dilatado que construíram.
Dói, mas a realidade não se satisfaz nem se altera com desculpas. Parabéns ao Porto, parabéns a todos os portistas, excepção óbvia à escumalha nojenta que conseguiu iludir três milhões de anos de evolução e teima em cada batimento cardíaco em nos recordar que não consegue existir de forma saudável fora de uma jaula.
Hoje é outro dia, e apesar da desilusão, sou Benfiquista e assumo-o com orgulho. Quem não é capaz de manter a cabeça erguida na hora da derrota, não merece tê-la levantada na hora da vitória.

Diário - 22 de Outubro

A história de Portugal presenteou-nos com muitos erros, alguns dos quais trágicos. Um desses erros trágicos foi corrigido em 22 de Outubro de 1383. A saber, o erro trágico foi o nascimento de um puto chorão e merdoso que viria a ser um rei chorão e merdoso chamado D Fernando. D Fernando ficou para a história como “o Belo” o que indica, ou um profundo sarcasmo, ou que os conceitos de beleza na altura assentavam em algo como “tem os membros proporcionados (as partes fodengas não contam), não é disforme, sabe andar e a cara não assusta tanto como o hálito”. De qualquer maneira este artolas chegou ao trono e espatifou completamente as finanças que estavam num excelente estado depois do pai, do avô e do bisavô, que, quando não andaram à bordoada uns com os outros, recuperaram este país de centenas de anos de guerra constante. Este palerma decidiu invadir Castela, fê-lo por três vezes e das três voltou com a extensão posterior da coluna vertebral de muitos vertebrados, situada em posição dorsal em relação ao ânus, entre os membros locomotores posteriores. No final do cortejo abjecto de parvoíces que foi o seu reinado, ainda deixou uma filha miúda casada com um rei Castelhano graúdo, (a pedofilia era permitida em casas reais) uma viúva devassa a devassar um conde que se escondia em guardafatos e um reino num estado mais caótico que os trabalhos de casa de contabilidade pública do Teixeira dos Santos. A sua morte, há quem diga que foi de peste mas eu aposto que foi de sarna, deu origem a uma das maiores crises da nossa história, que culminou numa das nossas maiores vitórias de sempre.

Muitos anos mais tarde, já no século XX, foi neste dia em 1934 que o FBI matou um famoso ladrão de bancos, o Pretty Boy Floyd. O seu irmão gay de nome Pink Floyd sobreviveu e inspirou a criação de um dos melhores grupos de música de todos os tempos.

Em 1975 foi a vez da expedição soviética não tripulada, Venera 9, ter aterrado em Vénus. A expedição não foi tripulada por medo que os tripulantes desertassem, e, também, …. adivinharam, por medo das doenças venéreas.

Para terminar, foi neste dia que Maurice Pappon, um ex oficial da França de Vichy (governo provisório no sul de França que tinha como passatempo favorito beijar o rabo aos nazis) foi preso por crimes contra a humanidade.

E amanhã há mais !

21 de Outubro

Hoje acordei virado para a História. Tenho dias assim, o quê que querem que eu faça ?

21 de Outubro foi um dia importante na História pelos mais variados motivos. Em 1096 aquela que ficou conhecida pela “cruzada popular”, que não foi mais que um exército de pedintes religiosamente fanatizados liderada pelo Pedro, o Eremita (nada a ver com a carta do Tarot) apanhou com um exército turco pela frente e atravessou o rio mitológico que separa este mundo do outro. Mais tarde, em 1512 Martin Lutero entrou numa faculdade de Teologia qualquer. Um dia escreveria as “95 Teses contra as indulgências”, livro que deu origem à Reforma. A sua tentativa de reformar o regabofe em que se tinha tornado a igreja católica deu origem a uma orgia de violência e de sangue, onde a guerra dos 30 anos foi o mais aterrador exemplo. O que começou como uma preocupação ambiental (reformar o Vaticano) acabou como inovação culinária (o arroz de cabidela). Oito anos mais tarde um Português emigrado que daria o nome a um computador dobrou o extremo sul do continente americano, tendo dado a esse estreito o nome, adivinhem de quê … exacto, de um computador. Para os leigos, estou a falar do Magalhães.

Muito tempo depois, neste mesmo dia em 1805, uma frota Inglesa liderada pelo Almirante Nélson ensinou técnicas pioneiras de mergulho subaquático a uma frota combinada de Espanhóis e Franceses. As técnicas foram tão pioneiras que no início do sec XX ainda houve quem as aplicasse, como no caso do Titanic. Entretanto, os Ingleses ficaram tão contentes com o resultado que decidiram enfiar o tal Almirante em cima de uma coluna numa das principais praças de Londres. E há quem diga que os homens do mar não têm uma vida dura.

Em 21 de Outubro de 1854 uma Senhora chamada Florence Nightingale decidiu levar 38 enfermeiras para a guerra da Crimeia. Criou os primeiros hospitais de campanha dos tempos modernos e conquistou o seu lugar como uma das grandes mulheres da História, isto na minha opinião. O que foi mais fantástico em toda esta questão, e apesar de incompreensível para muitas políticas da nossa praça, é que o fez sem que tivesse sido necessária qualquer Lei das cotas ou da paridade, e sem apoio de nenhum Ministério para a Igualdade de Género. Fantástico Mike !!!

Em 1879 Edison conseguiu que um filamento de carbono estivesse aceso durante 13 horas e meia, e, já que falamos de luz, em 1921 o Presidente Americano Warren Harding fez pela primeira vez um discurso a criticar os linchamentos de negros no sul dos Estados Unidos. É verdade, 56 anos depois de uma guerra civil que teve como resultado a libertação dos escravos e a sua assumpção na constituição como cidadãos de pleno direito, alguém se revoltou em público e disse algo como “epá, não linchem os pretos”. Custou mas foi. Em 1944 ocorreu o primeiro ataque de kamikazes. Segundo se sabe foram sindicalistas em protesto pelo regime de avaliação que estava a ser introduzido na força aérea nipónica. Infelizmente este facto nunca foi provado porque os intervenientes morreram urrando histericamente algo como “Seravali Adu Saikaro” que se traduz como “antes morto que avaliado”.

E pronto, foi assim o dia 21 de Outubro. Termino porque até mesmo eu tenho um certo limite para a quantidade de disparates que escrevo de uma só vez.

Ressaca III

São 9 horas. Está com numa postura vertical de fazer inveja a qualquer linha recta. Pasta preta entre ambos os pés, óculos escuros, jornal de negócios aberto. Veste um fato listado, preta a cor principal, azuis as linhas, gravata algures entre o azul e o turquesa. Postura clássica de executivo, ainda não deve ter 30 anos mas esforça-se para parecer ter 40. Pode ser vendedor ou gestor, economista ou advogado. É daqueles para quem a imagem vale muito, vale pelo menos a primeira impressão e esforça-se para que essa primeira impressão seja intimidatória. Se não fosse o facto de, de dois em dois minutos, olhar para todos os lados, fiscalizar se o brilho impecável da graxa dos seus sapatos ainda se mantém, passar a mão pelo cabelo para o ajeitar, era impossível perceber a sua insegurança quase perfeitamente mascarada.

9 horas e 32 minutos. Sapatilhas sem atacadores e tão gastas que só a imaginação nos leva a crer que alguma vez tiveram alguma característica cromática. Calças de ganga ou a imitar o gasto, ou então gastas para além de qualquer prazo de validade, situadas bem abaixo do rabo, o que lhe permite mostrar os boxers puxados para cima até ao umbigo. Casaco camuflado, T-shirt do che guevara, cabelo desgrenhado com aspecto mais oleoso que um big Mac em hora de ponta. Cara redonda mas não rechonchuda, impossível de reconhecer traços originais por detrás das diferentes gerações de rebeldia acniana que o transformaram numa aula prática de cubismo. Desloca-se como quem não quer saber de onde vem nem para onde vai. Não pertence ao mundo e o mundo não lhe pertence, aliás, não há mundo, pelo menos um mundo em que se sinta. Escarra para o chão com a mesma Homérica indiferença com que pontapeia duas latas de cerveja que encontra no caminho espalhando a sua atitude de QSF (quer dizer “que sa foda” mas é óbvio que não escreverei coisas dessas no meu blog).

12 horas e 45 minutos. Desce na escada rolante com uma postura esfíngica, olhar em frente para o vazio do destino, corpo hirto e imperturbável. Sabe que não vale a pena olhar à volta, sabe que é ela que tem que ser contemplada, ela, obra prima da criação, costela elevada à divindade. É mais alta do que a média, tem uns cabelos aloirados ondulantes que se espalham pelos ombros como guarda de honra de um pescoço mais comprido que o normal. Top preto suficientemente pequeno para mostrar quanto baste para despertar o desejo de sonhar com o resto, calças quatro números abaixo do normal de forma a não criar qualquer ruído que nos impeça de perceber que as curvas do seu corpo foram esculpidas por poetas. Não é humana, pelo menos não como defino a humanidade. Carrega em si em potência o drama dos que gostam de se ver acima dos outros. Mais cedo ou mais tarde os outros fazem-lhes a vontade e chutam-nos para fora deste círculo em que só os imperfeitos convivem, porque a perfeição é como a fruta em calda, na quantidade suficiente sabe bem, no exagero enoja.

12 horas e 54 minutos. Baixa, magra, cabelo preto apanhado numa trança até metade das costas. Não anda, saltita suavemente como quem acha a força da gravidade uma perda de tempo. Tem uma mala à tiracolo e o telemóvel numa mão, sorri. Nada do que se passa à sua volta importuna a sua caminhada mas a sua caminhada deixa um rasto de cor e de som que até nas pedras da calçada se entranha. Se existisse uma escala de evolução para aplicar às mulheres, ela estava no topo. Pertence à classe de mulheres que são amadas e sabem-no, não há ser mais perfeito na criação ou evolução. Vê-se pela forma como sorri, identifica-se pelo tom em que fala, adivinha-se na suave dança dos seus movimentos. Nisso elas são diferentes de nós, e ainda bem. Uma mulher amada é uma ode triunfal, uma sinfonia de felicidade e uma luz que ilumina, aquece e não se esgota. Infelizmente tenho-me cruzado com poucas nos últimos tempos, mas esta é claramente uma delas.

Por esta altura devem estar a perguntar que raio de relatos são estes, é muito simples e passo a explicar. O que estas quatro pessoas têm em comum é que se cruzaram comigo hoje, estavam todas elas a fumar um cigarro e só me apeteceu, independentemente do sexo, idade ou aspecto, beijá-las na boca e sugar-lhes todo o ar dos pulmões.

Esta é a medida do meu desespero !

Ressaca II

48 horas. Agora sim isto começa a doer. Ontem à noite fechei-me em casa assim que consegui. Pela primeira vez soube que se passasse por algum local com cigarros comprava e fumava um maço inteiro nuns 15/20 minutos. Fechadinho e com um livro nas mãos a coisa compôs-se um pouco, apesar de precisar de 4 ou 5 repetições para entender o sentido das frases. O maior problema começa a ser exactamente esse, a realidade deixou de ser algo sólido e palpável e passou a ser uma imagem difusa que me passa à frente dos olhos como uma névoa, ou uma baforada de fumo de tabaco.

Esta noite adormeci lá pelas 5h00, se já tenho por hábito adormecer tarde, a falta da droga parece estar a piorar a situação. Acordei quando o despertador me mandou acordar e, surpresa agradável, não sinto a garganta tão miserável como de costume e lavar os dentes deixou de ser uma emergência imediata e passou a poder esperar por umas boas espreguiçadelas, isto porque sinto o hálito bem menos tóxico.

Felizmente ainda só tive acessos de mau feitio e não houve nenhuma verdadeira explosão, apesar de saber que elas vão acontecer, já me foram enviadas pelo correio.

Quando estudava Ecologia lembro-me vagamente de falar num conceito do género de “espécies dominantes” que eram espécies cuja acção influenciava todo o Ecossistema. Pois bem, nós também temos hábitos dominantes, ou vícios dominantes, como quiserem. O tabaco comigo é/era um deles. Olhando e revendo o meu dia-a-dia noto claramente que o acto de puxar de um cigarro era não só estrutural como estruturante. Em cada um dos momentos da minha rotina diária sinto que falta alguma coisa, que algo está incompleto, que o encadeamento deixou de fazer sentido. Estou a tentar adaptar-me mas sinto-me como um errante com uma bússola avariada que só aponta o caminho para uma máquina de maços de tabaco.

Apesar de tudo, tenham calma, não desesperem. Ainda não desisti, e sei que vai piorar, e MUITO !

Ressaca I

Se defini ontem o “vício” como a incapacidade de travar a presença de algo que nos dá prazer, então a “ressaca” só pode considerada como a reacção do corpo à falta de algo que lhe dá prazer. Bem, vou parar de brincar aos dicionários e passar directamente ao que interessa, não fumo há 27 horas.

Não me venham com as conversas do costume do género de “não penses no assunto”, “não contes as horas”, “tens que continuar”, já conheço essas deixas todas. Sim até mesmo eu já li, em dias de paragem cerebral, esses livrinhos de auto-ajuda que nos convencem que somos os melhores do mundo e que somos capazes de tudo. Quem os escreve só se esquece normalmente de explicar é que se precisamos de ser convencidos de que somos capazes de algo, então é porque na realidade não somos.

Largando a metafísica, a realidade é que esta porcaria custa como tudo. Ainda só passou um dia, ou seja, na travessia do deserto eu ainda estou na parte é que percebo que aquilo tem areia e é um bocadinho quente. O dia de ontem, depois do cigarro das 9h30, foi estranho. Tive a sorte de ter tido muito trabalho o que me ocupou bastante a cabeça mas senti logo falta da minha droga preferida. Percebi-o quando me levantei para ir onde sempre vou fumar e ao lá chegar é que aceitei a nova realidade. Andei a deambular pelos corredores da casa em busca de um motivo lógico para a decisão que tinha tomado, mas, com ou sem lógica, o meu corpinho vai passar a ser uma “smoke free zone”. Saí do serviço e fui andando a pé até à estação da CP e ao contrário de dias anteriores dispensei o banco onde me sento a fumar o cigarrito antes do comboio. Depois do jantar começou o verdadeiro inferno. O café e o tabaco amam-se como um hamburger e batatas fritas e por mais que me convença da justiça desta minha nova odisseia, acho que separar um amor destes é um pecado mortal. Já vi a realidade mas ainda resisto a aceitá-la, se quiser mesmo cortar com o tabaco, e quero, vou ter que enfiar o café no mesmo saco e despachá-lo para a gaveta das memórias, nem que seja temporariamente.

O dia hoje correu bem, pelo menos até chegar ao serviço e beber o café da manhã. Saí do bar a jogar a mão ao bolso em busca do maço, como o fiz inúmeras vezes mas a realidade mudou. Confesso que estou a aguentar bem, por mais que me queixe, mas também tenho a perfeita certeza que o pior está para vir. O que acho estranha é esta sensação de pairar sobre a realidade. Quando comecei a fumar há 11 anos atrás adorava o primeiro cigarro da manhã. Fumava-o e apanhava aquela tontura simpática como se andasse numa dimensão diferente. Agora a falta do tabaco coloca-me permanentemente nesse estado, o que é complicado para quem tem que se recordar de muitas coisas no trabalho.

Estou a entrar num estado de anestesia que me preocupa porque as minhas responsabilidades não se compadecem com erros que possam ser justificados com “nicotina shortage”. De qualquer forma, “a gente vai continuar” como canta o Jorge Palma. Tal como sempre fiz ao longo da vida, só prometo luta, nunca vitória. Mas tal como a vida também me ensinou, tenho hábito de ser melhor quando estou em baixo e, acreditem, não me estou a sentir nada capaz de aguentar esta luta contra o meu vício preferido. E é exactamente por não me sentir capaz que sei que desta vez tenho hipóteses reais de triunfar.

É complicado perceber ? Sim, eu sei que é, mas que hei-de eu fazer. Simples simples era comprar um maço e acabar com isto, mas desta vez abjuro a simplicidade.

Vícios

Há uma estranha relação entre o prazer e o vício. Atribuímos naturalmente uma conotação negativa à palavra “vício” quando que no fundo, o seu conceito resulta apenas da nossa incapacidade de travar algo que nos dá prazer.

Eu, pela minha parte, não tenho problemas em assumir que sou um típico viciado. Quando gosto de algo não tenho grande facilidade em afastar-me de livre vontade do que me faz sentir bem. Sou daquelas pessoas que não compreendem por que razão é educado e tem etiqueta deixar um pouco de bebida no fundo de um copo. Se gosto do que estou a beber bebo tudo, enquanto me apetecer. E se quiser sirvo-me mais 2, 3 ou 10 vezes e ai de quem me tentar impedir. Nunca vou entender por que raio a cozinha Francesa tem tão bom nome quando eles se limitam a enfeitar pratos com amostras de comida tão pequenas que fariam um hamster pensar que tinha emigrado para o Biafra. Não me venham com a eterna história de que só devemos comer enquanto temos fome, quero que se danem com essas teorias. Se a comida me está a saber bem, se estou a ter prazer em comer, como até encher o estômago e o esófago ou pensam que consegui este belo corpinho sem esforço ?

Mas não pensem que isto se limita à comida e à bebida, não ! Também sou viciado, por exemplo, em pessoas. Sou viciado nas suas particularidades, no que faz delas diferentes de todas as outras. Sou viciado nos olhares, nos sorrisos, sim, principalmente nos sorrisos, nas conversas, em tudo o que me oferecem sem saber e que me torna dependente delas. Consigo, com maior ou menor dificuldade, dispensar quase todas as coisas que me rodeiam, mas quando se fala de pessoas, perder alguém que é companhia assídua e agradável (aliás, se não fosse agradável não seria assídua) é das piores privações que por que passei.

Em termos de vícios, há também o tabaco. Tenho uma média impressionante de fumar um maço por dia, sendo raras as vezes que a ultrapasso. É óbvio que se pensar bem consigo reduzir a 5 ou 6 cigarros mas esses são absolutamente essenciais à manutenção da minha sanidade. Só quem fuma, ou fumou, é que consegue compreender a sensação da primeira passa de um cigarro a seguir ao café da manhã e por mais que me provem cientificamente, medicamente, espiritualmente ou gramaticalmente que vou morrer mais cedo por fumar, a realidade é que não quero saber. Tenho muitas dúvidas que viva mais se cortar com todos os meus vícios, acredito muito mais que o tempo simplesmente vai é custar mais a passar. Independentemente de toda esta conversa, a verdade é que depois de algumas ameaças que já se arrastavam há duas semanas acabei a receber inspiração de onde não esperava. Descobri uma colega de serviço envolvida numa guerra semelhante e antecipei o início da minha. Declarei hoje (15/9/10) oficialmente guerra ao tabaco. Não vai ser nada fácil, e, exactamente por isso vai ser giro. Vou dando notícias de como as coisas estão a correr. Se conseguir deixar de fumar, garanto que daqui a uns tempos compro um belo de um charuto para comemorar.

Desejem-me boa sorte.

Sondagens

Se não me falha a memória, em finais de Abril houve uma sondagem a dar o PSD de Passos Coelho na liderança. Lembro-me bem porque passou em todas as TVs e foi capa de jornal até à exaustão. Acabei de saber que há poucos dias saiu outra sondagem com o PSD e o "exterminador implacável" do estado social em queda. Como vivemos num país que, segundo algumas alimárias, a comunicação social é controlada pelo Governo, pergunto: Por que raio essa sondagem não mereceu tanta atenção como a primeira ?

O anti-herói

Terminou o campeonato do mundo de futebol. Como é típico, agora vem a altura de fazer todos os balanços sobre o que aconteceu. Quem surpreendeu pela positiva, quem se afundou abaixo das expectativas. Está na hora de escolher os heróis e os vilões do certame desportivo. Eu, pela minha parte, desta vez não escolherei um “herói” do mundial. Neste ano, já escolhi o meu “anti-herói”, Andrés Iniesta.

Muitos poderão referir a minha esperteza saloia por escolher precisamente o homem que marcou o golo da vitória Espanhola na final. Azarito. Fiquem lá com os vossos rebuçados que a minha dieta desaconselha-os fortemente. Escolho Iniesta por muito mais do que o golo que marcou.

Iniesta foge à velocidade da luz do arquétipo do jogador de futebol moderno. Ele é tímido e reservado, calado e nada espampanante. Ele cumpre o seu papel, que é jogar futebol, e fá-lo melhor do que a maioria, e, ainda por cima, tem a coragem rara de não se gabar disso em público. Andrés é humilde, tão humilde como só os bravos conseguem ser. Não passeia tatuagens pelos relvados, não usa os incontornáveis brincos, não tem vergonha da sua careca e não consta que pense fazer implantes capilares para melhorar a sua imagem, como muitas dessas mariposas metrossexuais que por aí andam fariam. Não se conhece uma campanha publicitária daquelas a que os futebolistas tanto se dedicam, seja a uma marca de combustíveis para foguetões ou a um molho qualquer para temperar uma salada de beringelas.

Iniesta faz o que gosta de fazer. Joga, cria jogo, marca e é feliz assim, porque tudo o resto são cantigas, e ele não se reconhece nas letras ou músicas. É impensável vê-lo chegar a um estádio de helicóptero, é impossível imaginá-lo a comprar um filho para aparecer nas capas dos jornais.

A nossa sociedade continua a privilegiar comportamentos paleolíticos. Não interessa muito quem realmente somos, interessa muito mais a imagem de nós que passamos. Se um homem se mostra confiante e decidido, mesmo que não o seja, tem abertas todas as portas e é por todos admirado. Se um homem se mostra humilde e recatado, por muito corajoso ou confiante que seja, vende a imagem de alguém fraco e medroso. Essas imagens valem muito mais do que a realidade, e nem sequer se dão ao trabalho de descortinar quando a imagem é uma máscara para traumas e fraquezas, ou quando a timidez é apenas um véu que protege toda a força interior que está escondida. Triste humanidade esta que depois de partir o átomo e descodificar o gene ainda se rege por regras sociais dos tempos em que resolvíamos os nossos problemas à mocada dentro de uma gruta.

Iniesta é o anti-herói porque escarna olimpicamente sobre os que se prendem a estes conceitos da ditadura da imagem. Fá-lo, não só por ser bom, melhor do que a maioria dos outros, mas por saber que será reconhecido mesmo sem se tornar num emplastro para a comunicação social e as revistas cor-de-rosa. Por tudo isso, Andrés Iniesta merece o seu momento de honra no cimo do pedestal. É claro que não o quer, nós os tímidos, nunca o queremos. Mas que merece, merece !

Estranhos

A semana passada recebi pela primeira vez estranhos em casa. Tive algumas opiniões favoráveis ao meu ingresso no couchsurfing, outras desfavoráveis que não se cansaram de me repetir os riscos. Como de costume, decidi e segui em frente, o meu apartamento vai servir este verão de santuário para pessoal de quer passar férias de forma barata.

Terça feira passada chegaram os pioneiros. Ele é o Tim. Americano de 25 anos com 2,05 metros. Estuda engenharia bio-médica na Holanda. É de S Diego, na Califórnia, uma das cidades mais bonitas dos Estados Unidos, país de onde saiu aos 19 anos para ir trabalhar para a Austrália. Temos algumas coisas em comum, pelo menos no que às férias diz respeito. Gosta de partir à descoberta sem planos nem roteiros, gosta de ser atropelado pelo inesperado, de errar sem destino e de reagir a estímulos, mais do que os prever. Contou-me que um dia se lembrou de ir de onde estava para Sidney. Olhou para o mapa mas não para a escala, fez-se à estrada e ficou sem gasóleo a uns 350 km do destino. Passadas 12 horas parado no carro no meio do deserto, foi socorrido por um carro que passou com 4 jovens, incluindo a futura namorada, que seria por evolução favorável do destino, futura esposa. Pediu-a em casamento 7 meses depois quando, segundo as suas palavras, percebeu que ouvir a sua voz todas as manhãs seria suficiente para ser feliz, ainda que lhe faltasse tudo o resto. Adora futebol e inveja a capacidade que nós europeus temos de encontrar no desporto um factor de unidade nacional, coisa que não acontece nos Estados Unidos onde as competições são entre clubes e universidades e nada mais. Adora política mas está descrente sobre a capacidade dos Americanos corrigirem o que há de errado no país. É louco pela Europa e quer conhecê-la toda devido às muitas convulsões e complicações que são estranhas à simplicidade do sistema Americano.

Ela, bem, ela é a Asli. Turca da zona de Ancara descendente de Tártaros que viveram alguns séculos na Crimeia. É baixinha, de cabelos que ainda não decidiram se são castanhos claros ou louros, e com uns olhos verdes, verdes inundados em clorofila, daqueles olhos onde um homem se perde mesmo ainda antes de pensar em perder-se. Ela estuda também na Holanda uma coisa chamada Design Industrial e no seu tempo livre é voluntária numa associação de apoio a doentes com Alzheimer. Adora música, especialmente música étnica e Jazz, pinta de vez em quando e é dançarina de dança do ventre. Não liga muito à religião mas é muçulmana. Segundo ela seria uma traição não respeitar a religião graças à qual tantos dos seus antepassados foram perseguidos por governos czaristas e comunas. O sonho dela é conhecer o mundo. Visitar sítios diferentes, contactar com culturas distintas, conversar com estranhos. É uma profunda idealista que acredita que só criando uma rede que rompa com as fronteiras a que ainda nos agarramos é que podemos ter consciência que cada ser humano é uma obra prima da criação, natural ou divina, e que só quando nos olharmos como tal deixaremos de nos matar uns aos outros por motivos estúpidos. Uma noite, a olhar para as borras do pior café que bebi este milénio, disse-me ser uma tradição Tártara ler a sina nas ditas borras do café. Foi a deixa perfeita para uma das minhas típicas piadas que saiu sob a forma de “I saw it in Harry Potter”, ao que ela respondeu com um brutal “Hey jackass, do I look like Trelawney to you ?”. Finda a troca de galhardetes, lá virou a chávena ao contrário e a leitura que fez deixou-me literalmente de queixos no chão, sim, ainda mais do que a cor dos seus olhos.

Estiveram cá três dias. Foram às ilhas, conheceram a baixa de Olhão, apaixonaram-se pelos gelados da Gelvi que disseram ser os melhores que já comeram. Ficaram extasiados por podermos comer uma posta gigante de espadarte por 12 euros e, na última noite fizeram uma birra monumental porque queriam comer carne, problema prontamente resolvido com uma ida a um rodízio. Depois de uma refeição com todos os requintes de alarvidade, em que a Asli devorou com uma sofreguidão que merecia prémio Nobel todos os pedaços de ananás grelhado que conseguiu (nunca tinha provado tal coisa), fomos ao Cantaloupe onde, ao som de Jazz, tivemos mais uma amena cavaqueira. Numa dada altura perguntei-lhes se tinham algum desejo especial para a última noite. O Tim, vergado a 6 ou 7 cervejas e a 1/3 de uma aguardente de medronho soltou um simples “I just want to be near the sea”, enquanto que a Asli, amaciada por 2 caipirinhas e outro 1/3 de aguardente de medronho saiu-se com um poético “I want something different, something magic”. Eu pelo meu lado, desperto por duas taças de vinho tinto e pelo 1/3 restante da aguardente, lembrei-me de citar o Harry no 6º filme da sua saga e proferi um confiante e decidido “then by all means, come along”.

Alugámos um barco onde entrámos, o Tim com um sorriso de delinquência infantil, a Asli com uma apreensão que oscilava entre o receio e a excitação. Um minuto depois vogávamos pela Ria Formosa à velocidade da aventura e só parámos na ilha da Armona. Eram 0h45. O motorista colou-se a nós, como era por demais previsível. Fomos a um bar que fica junto à praia e enquanto o Tim com um estoicismo admirável aturou o nosso motorista a explicar como perdeu uma carreira futebolística excelente para vir para Portugal ter com a mãe, eu e a Asli juntámo-nos a um grupo que, ao som de viola, ia cantando tudo o que havia para cantar. Depois das cantorias ainda houve tempo para um passeio pela praia, para molhar os pés, e, para numa ofensiva tão bem consertada que faria inveja a qualquer regimento de operações especiais, encharcar o motorista, o que foi bastante arriscado dado que ele tinha as chaves do barco. Antes de tudo terminar, a Asli ainda me chamou à parte e durante meia hora soltou toda a sua perspicácia e terminou a conversa da leitura da sina da noite anterior, conversa essa que corre o risco de se tornar numa das mais emblemáticas e importantes dos últimos tempos.

Voltámos para Olhão já as 4h00 tinham passado. O Tim mais adormecido que acordado, a Asli mais confiante no barco, mas ainda assim a cravar-me as unhas no ombro cada vez que havia uma guinada ou rasgávamos alguma onda.

No dia seguinte foram embora. Deixaram atrás um rasto de risos e gargalhadas, conversas e bons momentos. Só me pediram que lhes arranjasse dormida por três dias, em troca ofereceram-me muito mais do que isso. O “meu” Americano de 2,05m lá foi com a Europa dentro da cabeça. A “minha” Turco-Tártara, essa continuará com o Mundo entre os seus olhos verdes hipnotizantes.

Como balanço, fica a certeza que fiz dois amigos, e, como canta o Sérgio Godinho, “coisa mais preciosa no mundo não há”.

Pickett´s charge

Os dias 1, 2 e 3 de Julho marcaram mais um aniversário da batalha de Gettysburg. Não vou maçar-vos obviamente com o relato de todos os acontecimentos e escaramuças que fizeram dessa batalha o “turning point” da guerra civil americana, nem sequer vou entrar pelos campos da análise histórica para explicar a razão dessa guerra ter sido, na minha opinião, um dos momentos que mudaram o mundo e abriram caminhos que até então existiam apenas na penumbra. Vou apenas concentrar-me no último dia da batalha. Vou apenas ocupar-me de uma carga de infantaria que marcou a fogo a memória e elevou o nome dos derrotados acima da glória dos vencedores.
No dia 1 de Julho o exército confederado (sulistas) caminhava descontraidamente e completamente desmobilizado pelos campos da Pennsylvania (estado onde se situa Gettysburg) seguros de que não tinham oposição. A cavalaria do consagrado Genaral JEB Stuart tinha cometido um erro infantil e, em vez de estar de olho em cima do exército unionista (nortistas) andava divertida a saquear pequenas vilas na outra ponta do estado. A consequência foi que na manhã de 1/7/1863 os destacamentos avançados confederados viram-se apanhados pela cavalaria unionista completamente de surpresa. Robert E Lee, o General sulista, evitou o mais que pode entrar num confronto generalizado, quanto mais não seja porque não sabia que forças estava a enfrentar. A enorme resistência dada pela cavalaria de Buford obrigou-o a rasgar os seus planos originais e a adaptar-se à nova circunstância. A meio da tarde ordenou a todas as forças confederadas presentes que se lançassem no campo de batalha e, a metade do exército unionista já presente foi quase chacinada. Ao cair da noite, Gettysburg estava ocupada e o exército unionista, a receber reforços a cada minuto, estava entrincheirado nas escarpas e montes a sul da cidade.
No dia 2 de Julho, Lee ordenou constantes e sucessivos ataques contra os nortistas mas nenhum deles deu resultado. O exército do norte estava num terreno elevado, com fortes posições defensivas e naqueles tempos as tácticas de guerra associadas ao armamento beneficiavam claramente os defensores.
Eis então que chegamos ao dia 3 de Julho. As linhas unionistas mantêm-se seguras, o exército confederado, depois de atacar ambos os flancos foi repelido. Apesar de muito discutida e muito polémica, Lee decide por um ataque frontal ao centro das linhas do exército da União. O plano de batalha era simples. Três Divisões inteiras, constituídas por nove Brigadas e perfazendo um total de 13.000 homens avançariam em linha recta não parando por nada, nem sequer para responder ao fogo inimigo. Após terminarem esta caminha de dois quilómetros em passo rápido, atacariam as linhas defensivas que se encontravam protegidas por um muro de pedra na extensão de toda a frente. O avanço seria precedido por uma barragem de artilharia com o objectivo de neutralizar os canhões dos nortistas. Teoricamente era bonito, apesar de arriscado. Na prática, foi um desastre. Nenhuma carga de infantaria tinha início sem a típica barragem de artilharia, logo, os unionistas aos primeiros tiros de canhão adivinharam o que aí vinha e retiraram grande parte da sua própria artilharia para fora do alcance dos canhões confederados. Além disso, mobilizaram reforços de outras partes da frente, e podiam fazê-lo em segurança porque a sua frente era muito mais compacta do que a frente sulista. Basicamente as descargas dos confederados acertaram em nada e quando os seus 13.000 soldados saíram dos bosques e iniciaram a caminhada, os unionistas trouxeram de volta os canhões e abriram fogo com tudo o que tinham. A partir dos 1.200 metros de distância os sulistas ficaram ao alcance dos canhões de grande alcance que foram abrindo pontualmente buracos na suas linhas. A cada tiro certeiro os soldados das Brigadas de suporte que vinham atrás ocupavam o lugar dos seus camaradas caídos e com o avanço progressivo as linhas foram encolhendo facilitando a vida aos artilheiros da União que tinham que se preocupar com linhas inimigas cada vez mais curtas e cada vez mais próximas. A cerca de 800 metros do objectivo final, os confederados tiveram que ultrapassar uma cerca em madeira e voltar a formar do outro lado da mesma, o que foi um processo lento e que causou bastantes baixas. As duas Brigadas do General Anderson que deviam estabilizar a frente sul do avanço não conseguiram passar desta cerca, tal foi o elevado número de baixas. Na frente norte, duas Brigadas unionistas abandonaram a linha defensiva e num movimento de flanqueamento sujeitaram toda a metade norte da linha avançada confederada um fogo vindo de duas direcções, o que exponenciou as baixas e fez com que a maioria das Brigadas das Divisões de Pettigrew e Trimble desistissem da carga antes do seu final.
Aos 300 metros de distância tudo piorou. Desta vez os soldados sulistas ficaram sob fogo das munições de curto alcance. Eram chamadas as “grape shots” porque explodiam à saída do canhão e funcionavam como caçadeiras gigantes que abatiam homens à dezena e abriam buracos nas linhas que já não podiam ser preenchidos de novo. Cada vez existiam menos soldados a avançar mas isso não os parou. A 100 metros de distância ficaram ainda ao alcance dos disparos de espingarda. Os soldados do norte tinham linhas com uma profundidade de quatro homens, em que o da frente disparava e os restantes recarregavam as armas.
Nesta altura, já só a Divisão de Pickett se encontrava em combate. As suas três Brigadas eram lideradas por James Kemper, que já tinha caído com uma ferida grave, por Richard Garrett, que ferido numa perna na batalha anterior fez a carga a cavalo ignorando os avisos para não o fazer visto tornar-se num alvo bem identificável. Garrett foi visto até cerca de 200 metros do alvo tendo sido “pulverizado” por um tiro certeiro de “grape shot”. Finalmente havia Lew Armistead que era o oficial de maior patente ainda em combate. Os restos desta três Brigadas sob liderança de Armistead ainda conseguiram furar as linhas defensivas unionistas mas estavam demasiado diminuídas para conseguir suster a frente. O contra ataque do norte foi implacável e perante um General Armistead mortalmente ferido, os soldados sobreviventes renderam-se ou foram mortos.
A carga de Pickett foi um desastre total para os confederados que perderam mais de 50% dos 13.000 homens envolvidos. Para explicitar bem a situação, na divisão de Pickett os três Generais que lideravam as Brigadas foram mortos, bem como os treze Coronéis que lideravam os respectivos regimentos. Numa daquelas ironias fazem a história, o General defensor do lado do norte era Hancock, o melhor amigo de Armistead antes da guerra, que também foi gravemente ferido durante a batalha. Quando os soldados unionistas assistiram um Armistead moribundo, ele pediu-lhes que o seu corpo fosse entregue a Hancock. Ao saber pelos soldados que Hancock também lutava pela vida, as suas últimas palavras foram: “No, not both of us, not all of us”.
Independentemente da minha posição sobre a guerra civil americana, independentemente de achar que o resultado foi o único possível para a Humanidade, mais do que para os Estados Unidos, não consigo deixar de admirar os homens que participaram nesta ridícula carnificina. Não consigo deixar de sentir um leve brilho nos olhos ao imaginar a cena de 13.000 homens avançarem num campo aberto aos gritos de “Virginia, Virginia”.
E avançaram mesmo.
Em direcção à morte e ao sofrimento.
Em direcção à derrota e à eternidade.

Uma noite diferente


Nada como chegar ao local do costume para uma bifana e uma cerveja, e descobrir que, na noite mais movimentada da semana, há falta de pessoal. Como mãos a abanar nunca ajudaram ninguém, vai de tirar cafés, servir cervejas, recolher e limpar mesas, lavar loiça entre a 1h e as 6h da manhã. A minha parte preferida foi no entanto varrer e lavar o chão entre as 6h e as 7h. Talvez esteja a levar a minha (re)conhecida polivalência longe demais.
Bem, pelo menos deu para ver o nascer do sol sobre a Ria Formosa. E espectáculo mais bonito não há.

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