Segunda-feira, Dezembro 14, 2009

Colunas de Hércules II – O regresso


São 18h15. Soltam-se as amarras. O som dos motores em crescendo não engana, três horas depois vai iniciar a viagem de regresso à Europa. Passamos lentamente por um torreão ainda dentro do porto de Ceuta, e, à saída desse mesmo porto, uma estátua de Hércules a empurrar duas colunas com os ombros despede-se de nós e deseja-nos boa viagem. Para trás fica Ceuta, já toda iluminada pelas luzes nocturnas. À frente fica Gibraltar, ainda longe da vista mas já entranhada no pensamento.


São 18h30. O meu plano inicial de ver o pôr do sol no barco a meio do estreito saiu furado. A noite aproxima-se rapidamente e, apesar de não ser um choque para mim descobrir que a Terra não alterou a sua velocidade de rotação para ceder aos meus caprichos, confesso que fiquei um pouco triste.


São 18h35. O vento e o frio são cortantes. O casaco ficou no carro em Algeciras de maneira que a camisa azul é a minha única linha de defesa contra uma temperatura que já é inferior a 10º C. O frio causa uma dor de certa forma libertadora. Os músculos contraem e o corpo treme, os pêlos eriçam e a pele fica arroxeada. Ainda há 40 minutos de viagem pela frente mas a vontade de me render ao canto das sereias, que desde os tempos de Ulisses se transformaram em poltronas confortáveis, reclináveis e climatizadas, não é nenhuma. Passeio pelo convés superior contando as luzes distantes dos navios e sorrio ao compreender a pulsão irresistível que tantos dos meus antepassados sentiram pelo mar.


São 18h45. Enrolo-me à frente da chaminé que vem directamente da casa das máquinas. Sinto nas costas o bafo quente que vem do motor que empurra o barco de regresso à Europa. Se a dor causada pelo frio é libertadora, este calor que me invade os poros é redentor. Finalmente encontrei um aliado para a minha luta contra a tentação de me recolher ao interior.


São 18h50. Atropelado pelo frio que vem de frente e aconchegado pelo bafo quente que vem de trás fecho os olhos com a sensação que o meu corpo se transformou num campo de batalha entre dois inimigos irreconciliáveis. É aqui que a noite me encontra.


São 19h20. Abro os olhos. A noite caiu e olha de forma arrogante para o barco que segue imperturbável o seu rumo. Sobre mim há um céu abobado de estrelas, entre as quais a “minha” constelação, Orion. Abandono a minha fortaleza à procura de ar livre de monóxido de carbono e entrego-me desprotegido ao frio. “O Rochedo” está ao meu lado direito e em frente as luzes do porto de Algeciras indicam a proximidade do destino final. Volto para o meu refúgio térmico. Está quase. Voltarei a pisar solo europeu em breve.


São 19h30. Depois de uma sedutora aproximação, barco e cais encontram-se num breve e fugaz carinho. Vou sair. Gibraltar espera-me.

Ceuta

Foi em 1415 que um reino estável, com as finanças em ordem, um rei ambicioso e montes de infantes temerários e sem nada para fazer decidiu partir à aventura. Na altura falou-se muito em atacar o reino de Granada mas D João I não alinhou na maluquice. Não lhe interessava criar um novo foco de conflitos com Castela, isto apesar da olímpica bordoada que lhes tinha dado 30 anos antes. Foi então decidido que o primeiro passo da expansão Portuguesa seria dado na direcção de Ceuta.

Ceuta era uma importante cidade no norte de África Berbere. Aí confluíam rotas comerciais que abasteciam o Mediterrâneo de ouro, escravos e marfim vindos do interior do continente africano. Existiram vários tipos de argumentos para irmos a Ceuta, geoestratégicos ( era um dos pontos de entrada no Mediterrâneo), económicos (já falei ali atrás lembram-se?), religiosos (matar muçulmanos e continuar a abastecer deus de matéria prima), etc e tal.

A expedição foi preparada com muito cuidado e quando se fez ao mar, tornou-se num conjunto de disparates e asneiras. Correu tudo mal, à excepção óbvia do resultado, que foi uma vitória. Mais de 1/3 da frota apanhou uma corrente qualquer manhosa e foi parar bem dentro do Mediterrâneo sem terem visto Ceuta nem de passagem. Os que deram com o sítio certo, ainda se dividiram em dois grupos, uns seguiram o rei D João I e atacaram no sítio que era suposto atacarem, os outros foram atrás do infante D Henrique e acabaram por atacar as muralhas de Ceuta por outro sítio completamente diferente. Com o passar do dia e da batalha, D João I ficou muito triste pensando que o seu rebento Henrique tinha sido rebentado, mas no entanto ele e o seu grupo foram os primeiros a penetrar nas muralhas. Ainda o rei estava do lado de fora e já o infante estava em Ceuta a fazer aquilo que os europeus ocidentais, civilizados e tementes a deus melhor faziam, a matar tudo o que se mexia à sua frente. Foi a prova conclusiva de que é verdadeiro aquele cliché que diz que o herói é o imbecil que foge na direcção errada quando as coisas dão para o torto.

Ceuta manteve-se em mãos portuguesas muitos anos. Depois da nossa perda da independência continuou governada por portugueses, mesmo durante o governo dos filipinos (reis, não as bolachas redondas de chocolate). Depois da nossa restauração em 1640 o pessoal em Ceuta resolveu não reconhecer legitimidade à casa de Bragança para reinar em Portugal e preferiu ficar com Espanha (porventura adivinharam que um dia muito longínquo tal casa produziria um D Duarte Pio). Não foi a última vez que o pessoal em Ceuta manifestou um estranho conceito de lealdade já que anteriormente tinham permitido a passagem do exército berbere que arrasou o reino Visigótico e posteriormente apoiaram Franco no seu ataque à República Espanhola.

Enfim, chega de história. Cheguei a Ceuta eram 15h15. Sempre tive curiosidade em conhecer a terra por onde começámos a fugir ao nosso destino miserável apenas para regressarmos muitos anos depois tão miseráveis como à partida. Tinha esperança de encontrar algo de exótico, de diferente, afinal de contas apesar de continuar no mesmo país (Espanha) tinha trocado de continente. Confesso que fui à procura de África e de Marrocos mas o que encontrei foi apenas mais uma cidade espanhola, se bem que noutro continente. Iniciámos uma caminhada a pé com destino a nada de especial. O objectivo era passear um bocado, comer e voltar para o barco porque do lado europeu ainda havia onde ir. Cruzei-me à entrada de Ceuta com uma rotunda com o infante D Henrique a apontar caminho sabe-se lá para onde. Provavelmente para Tânger onde deixou o seu irmão morrer aprisionado para não ter que entregar Ceuta aos mouros.


Dei a volta pela fortaleza e contornei o fosso da mesma. Fui em direcção à parte mais antiga da cidade em busca de algo de diferente mas não encontrei nada.


Portugal está muito presente em Ceuta. Nota-se nos nomes das ruas e até nas armas da cidade que ostentam um escudo português e mantêm as cores da cidade de Lisboa. Encontrar um local para comer foi uma aventura e só depois de muito procurar encontrámos um bar com um nome bastante suis generis (guardem as piadinhas para vocês se fazem favor) onde se depenicaram umas tapas para encher o estômago.


Depois disso foi regressar ao barco e esperar pela viagem de regresso à Europa. Apesar de umas quantas fotos bonitas, Ceuta foi uma completa desilusão. Não há lá nada que não pudesse existir em qualquer outra cidade espanhola, a não ser claro, a paisagem natural que é formidável. Nem os bazares marroquinos, nem as ruas com as esplanadas. Ceuta é apenas um pedaço de Europa enxertada em África. Se lá voltar será apenas de passagem para Marrocos.


Colunas de Hércules I – A travessia

Hércules teve uma vida lixada. Ser filho de Zeus não dava garantias de nada, especialmente se a mãe em vez de Hera, a esposa legítima, fosse uma das 1.348 amantes que Zeus tomou na sua vida. O tipo era uma espécie de Zézé Camarinha do Olimpo e depois de esgotadas as deusas ao dispor ( algumas delas suas próprias filhas ) não teve outra solução que não fosse virar-se para as mortais. De uma dessas cambalhotas nasceu Hércules que ganhou logo o ódio mortal de Hera. Um belo dia a esposa do seu papá enfeitiçou-o e ele, num ataque de loucura, matou a sua esposa e os seus filhos. Para remediar o mal foi ao Oráculo de Delfos ( uma coisa do género do Marcelo Rebelo de Sousa com a diferença de acertar nas previsões que fazia e nos conselhos que dava ) e foi-lhe dito que tinha que cumprir 12 trabalhos para limpar o seu registo criminal. Os trabalhos foram coisas do dia a dia normal de um semi-deus. Matar um leão, fazer uma corrida com uma corça, capturar um javali, limpar a merda acumulada de 3.000 bois durante 30 anos, apanhar maçãs, ensinar uns truques a um cão gigante com 3 cabeças, entre outros do mesmo calibre. Entre os 12 trabalhos que fez ainda teve tempo para algumas aventuras. Um belo dia encontrou Prometeu ainda aprisionado no Cáucaso e libertou-o, e noutro belo dia resolveu separar os montes Calpe ( actual Gibraltar ) e Abilia ( actual monte Hacho a leste de Ceuta ) e com isso abrir um estreito para ligar o Mediterrâneo ao Atlântico, estreito esse que ficou conhecido como “ as Colunas de Hércules “ e que hoje em dia se chama estreito de Gibraltar.
Serve esta pequena e desinteressante introdução para vos situar na minha despistagem do último sábado. O dia teve início às 7h e a viagem para Algeciras foi tão calma como qualquer viagem de carro em que o carro não dá problemas. Chegar a Algeciras foi simples, encontrar o porto de Algeciras não tão simples mas também não chegou a ser complicado. À entrada do porto os caça gorjetas do costume levaram-me à bilheteira e ao parque de estacionamento e depois de ter sido tratado umas 20 vezes por “hey tu Português” lá entrei no barco mais luxuoso e confortável da minha vida. Aquilo tinha muitos metros de altura e ainda mais metros de comprimento.



Pesava umas não sei quantas toneladas e, pormenor importante, não se chamava Titanic, o que me deu logo uma segurança acrescida. Tinha um bar que oferecia tapas aos passageiros e depois de umas lojinhas de perfumes e relógios vinha a sala principal onde estavam umas quantas centenas de poltronas reclináveis e mais confortáveis do que 85% das camas onde dormi na minha vida. Como não podia deixar de ser, havendo a hipótese de estar sentado, quente e confortável, obviamente que optei por ir para o deck superior apanhar frio e vento nas trombas mas estar ao ar livre.



A partida foi às 14h e depois de umas manobras manhosas que os capitães dos barcos sabem fazer, lá saímos do porto de Algeciras e aproámos a Ceuta. A viagem foi bonita. Passámos ao largo de Gibraltar e foi nesse momento que um grupo de golfinhos resolveu aparecer para nos fazer escolta, o que foi muito bem vindo, apesar de uma irritante incapacidade por eles demonstrada para estarem quietos para as fotografias.



À medida que nos fomos afastando, “o Rochedo” foi ficando cada vez mais pequeno no horizonte sem que contudo se visualizassem os contornos definidos da costa Africana.



Tudo o que tínhamos pela frente era uma névoa indistinta e, apesar de saber o destino esse ainda não estava definido ao olhar. Aos poucos os contornos do monte Hacho surgiram e, milha a milha, África foi surgindo ao olhar protegida por esse véu de mistério que ao longo da história tantos seduziu.




Uma hora e 15 minutos depois de sair da Algeciras o navio inicia as manobras de entrada no porto de Ceuta e dez minutos depois disso volto a pisar o continente Africano, mais de 34 anos depois de o ter abandonado numa manhã de Agosto em Luanda.

A primeira parte termina aqui. Em breve virá o resto do relato.

Segunda-feira, Dezembro 07, 2009

Sofá

Costumo dizer que a vida é feita de pequenos passos. Aliás, muita vezes até o faço em defesa própria visto que alterno fases de grande dinamismo com outras de maior preguiça.
Há para mim no entanto uma verdade evidente, é fundamental construir algo que nos faça um dia ver que não estamos no mesmo sítio, que não cristalizámos presos à ditadura do dia-a-dia. Que estamos melhor do que num passado, próximo ou distante.
É exactamente por isso que adoro as pequenas conquistas, porque me mostram que subi mais um degrau. Posso não saber bem em direcção a quê, o que às vezes acontece, mas saber que tenho mais, que sou mais, ou que fui mais longe já é garantia e estímulo para não parar.
Vem toda esta conversa porque este fim de semana chegou o meu sofá. Sim, foi só isso. A minha sala está menos vazia e mais aconchegada. Aos poucos a minha casa vai deixando de ser um aglomerado caótico e sem sentido e começa a parecer-se cada vez mais com aquilo que eu quero.
Comprá-la foi fácil. Foi pedir dinheiro emprestado a gente que faz da sua vida emprestar dinheiro aos outros e assinar uns 438 papeis. Agora vem o difícil, pagá-la e fazer daquelas 4 paredes e duas varandas maravilhosas um lar. Vai ser uma luta ciclópica, eu sei.
Mas este fim de semana conquistei um sofá. Palmas para mim !!!

Quarta-feira, Dezembro 02, 2009

Aniversário

Cumpriu-se dia 30 passado o 35º aniversário da minha existência.
Não se preocupem que não vos vou maçar (nem a mim) com um balanço desses 35 anos. Quero apenas dizer-vos que, ao contrário do que me senti quando regressei a casa, foi um dia excelente. Nele participaram muitas pessoas que insistiram em marcar presença, fizeram questão de me recordar (como se o pudesse esquecer) que significo alguma coisa para elas.
Foram amigos dos tempos de Universidade e de Escola, colegas de trabalho e antigos alunos. Pessoas íntimas e outras mais superficiais, próximas e distantes, algumas ocasionais e outras eternas. A todas agradeço do fundo do coração.
Há quem não goste do seu dia de anos por temer a lenta passagem do tempo e os seus efeitos. Eu adoro. É o dia mais bonito do meu calendário. Pelo menos dia 30 de Novembro eu sei que, graças a vós, qualquer balanço da minha vida que um dia faça, só pode ser positivo.

Quinta-feira, Novembro 19, 2009

Mário de Sá Carneiro

Genial. É tão fácil de explicar que não entendo como é que vocês não compreendem.



[...]Eu decido correr a uma provável desilusão: e uma manhã recebo na alma mais uma vergastada - prova real dessa desilusão. Era o momento de recuar. Mas eu não recuo. Sei já, positivamente sei, que só há ruínas no termo do beco, e continuo a correr para ele até que os braços se me partem de encontro ao muro espesso do beco sem saída. E você não imagina, meu querido Fernando, aonde me tem conduzido esta maneira de ser!... Há na minha vida um bem lamentável episódio que só se explica assim. Aqueles que o conhecem, no momento em que o vivi, chamaram-lhe loucura e disparate inexplicável. Mas não era, não era. É que eu, se começo a beber um copo de fel, hei-de forçosamente bebê-lo até ao fim. Porque - coisa estranha! - sofro menos esgotando-o até à última gota, do que lançando-o apenas encetado. Eu sou daqueles que vão até ao fim. Esta impossibilidade de renúncia, eu acho-a bela artisticamente, hei-de mesmo tratá-la num dos meus contos, mas na vida é uma triste coisa. Os actos da minha existência íntima, um deles quase trágico, são resultantes directos desse triste fardo. E, coisas que parecem inexplicáveis, explicam-se assim. Mas ninguém as compreende. Ou tão raros...

Mário de Sá-Carneiro, in "Cartas a Fernando Pessoa"

Quarta-feira, Novembro 18, 2009

Pedro Ferro

É daquelas coisas que não têm grande explicação, se é que têm alguma. Não me diz directamente respeito mas sem saber bem porquê foi uma notícia que me alegrou um pouco um dia muito complicado.
Cresci a ler o avô. Conheci a avó episodicamente. Dos pais apenas sei o nome. A tia, essa, cruzou a minha vida "com a determinação de uma carga de cavalaria e a sedução de um tango".
Espero que chegues depressa e bem Pedro. Espero que sejas a alegria que a tua família merece.
És uma esperança de vida e um germinar de sonhos.
Parabéns a toda a família.

Domingo, Novembro 15, 2009

Um raio de luz

Esta noite aconteceu uma coisa deveras estranha. Um raio de luz apareceu vindo não sei bem de onde e entrou num quarto muito escuro.
Pensa bem no que estás a fazer e ao quê que vens porque se for para ficares, não encontrarás da minha parte grande oposição.
Não fui feito para viver em escuridão.

Quarta-feira, Novembro 11, 2009

O amor é um lugar estranho

Hoje enviaram-me o link deste blog e gostei do que li. Parei logo no último post lá colocado e subscrevo-o na íntegra, trocando os sexos, claro. É isso mesmo ! Podem levá-las de livre vontade, fiquem com elas, façam-nas felizes ou usem-nas como depósito do que tiverem a mais no corpo quando vos apetecer.
É a vida !