Sexta-feira, Novembro 21, 2008

Manuela Ferreira Leite

Há alguns meses atrás, decorria animada a campanha eleitoral para as habituais eleições internas semestrais do PSD, e no meio das discussões animadas e apaixonadas que costumava ter no meu local de trabalho da altura ouvi uma brilhante pérola de análise política que nem tão cedo esquecerei : " Agora se a Ferreira Leite ganha é que eles entram em pânico". Como devem calcular os leitores mais desatentos o "eles" era eu e todos os Socialistas deste país. Na altura, confesso que o comentário me incomodou um bocado porque, não só não me sentia nada em pânico, como até estava satisfeito com a ideia da ministra das finanças do governo do "cherne" poder liderar o maior partido da oposição num contexto em que teria que explicar aos portugueses por que razão seria melhor para governar depois do brilhante desempenho económico do seu consulado. Como tenho a mania de, apesar de defender convictamente as minhas opiniões, não me achar detentor da verdade absoluta pensei um pouco no assunto, não fosse a minha análise estar completamente errada. Cheguei à conclusão que não, que eu estava certo e que a pior coisa que podia acontecer era o futuro dar-me uma liçao de humildade.
Bem dito, melhor feito, eu estava errado. Não estava errado ao querer ver a Dona Manuela à frente do PSD, estava errado ao pensar que os "eles agora entram em pânico" se referia a mim e aos meus camaradas. É um defeito que tenho reagir como quem está cercado quando sinto alguém, ou como costume muitos alguens a pôr-me em causa mas desta vez confesso que exagerei. Os "eles" não eram os Socialistas. Eram os trabalhadores que ganham o salário mínimo nacional que estavam em pânico porque a Dona Manuela quer rasgar o acordo de concertação social que este governo assinou com os sindicatos e que permitiu o maior aumento de sempre do salário mínimo em apenas 4 anos. Quem estava em pânico eram as empresas de obras públicas pois essas iriam parar se a Dona Manuela chegasse ao governo. Quem estava a entrar em parafuso eram os ministros das finanças da Guiné Bissau e da Ucrânia pois como a Dona Manuela tão bem explicou, a paragem das obras públicas em Portugal levaria ao aumento do desemprego nos seus países. Aqueles que ficaram aterrorizados, foram as empresas de fornecedores do estado e das autarquias que levam anos para receber e que este governo decidiu pagar pagar as dívidas ( medida que peca por 20 anos de atraso mas que foi tomada agora ) o que a Dona Manuela classificou de irresponsabilidade. Para terminar, em verdadeiro estado de pânico estavam os jornalistas que parece que não podem ser os únicos a decidir o que publicam e todos os sindicatos de todas as profissões deste país que perceberam ontem que para serem feitas reformas temos que suspender a democracia por seis meses.
Ontem compreendi finalmente o meu erro e lamento as discussões que causei por achar que, como Socialista, a eleição de Ferreira Leite representaria uma ameaça. Não era de mim que estavam a falar e lamento muito o meu erro de análise.
A todas as pessoas que agora se sentem verdadeiramente em pânico, pouco vos posso dizer a não ser que farei a minha parte para que a Dona Manuela não passe de apenas mais um erro de casting num filme de terror de classe C. Como eleitor, militante e dirigente de um partido político, neste caso o PS, esforçar-me-ei ao máximo para que ela não chegue ao ponto onde tenha a capacidade de suspender a democracia. Tenham fé e esperança. Confiem em mim. Ela não governará.

Sexta-feira, Novembro 14, 2008

Cada um atira o que tem à mão!

O Jumento escreveu. O Pedro Sá gostou e comentou. Eu gostei ainda mais e reproduzo tanto o texto original como o comentário posterior.
Não fiquei nada surpreendido com o comportamento dos meninos de Fafe nem com a reacção colectiva de condenação um dia depois, quando no momento em que os factos sucederam ninguém parece ter ficado muito indignado, nem deve ter faltado por esse país quem sorrido perante a situação e feliz pela mobilização dos pirralhos.
Não fiquei surpreendido porque uns dias antes, um dois oficiais que tiveram os mais altos cargos nas chefias militares sugeriram ao país que quando as pessoas se manifestam podem levar o que têm à mão, no caso dos militares são as armas que estão às mãos de semear. Ora, o que os meninos de Fafe fizeram não foi outra coisa senão o que sugeriram os militares, não tinham armas mas alguns deveriam ter umas galinhas poedeiras e a ministra da Educação, para gáudio geral, levou com ovos.
Se não tivessem aprendido com os generais poderiam ter seguido o exemplo do professor do CC do PCP que é líder da Fenprof, durante muitos meses o seu passatempo de fim-de-semana foi fazer esperas a Sócrates, ele e mais alguns professores exemplares, daqueles que todos gostaríamos de ver a ensinar os nossos filhos, deram a conhecer ao país um dicionário de calão político. Se não tivessem aprendido nem com os generais, nem com o distinto alto responsável do PCP ainda poderiam ter frequentado um dos cursos de desobediência civil.
De resto, num país em que todas as regiões oferecem doces regionais à base de ovos é perfeitamente natura que os meninos de Fafe tivessem mimoseado a professora com ovos.
Ao contrário da outra calmeirona que agrediu uma professora para recuperar o seu telemóvel, os meninos de Fafe foram heróis durante vinte e quatro horas, foram-no enquanto as dúvidas sobre as motivações e a espontaneidade da brilhante acção de galinharia urbana.
Quando a calmeirona agrediu a professora o país parou para reflectir, o tema da moda foi a indisciplina, a falta de espontaneidade e a violência nas escolas.
Quando a ministra foi agredida verbalmente e se arriscou a transformar a cabeça num preparado de ovos-moles, tudo isso perante a alegria colectiva fez-se silêncio, não há nada a reflectir.
No dia seguinte os pais e os professores repudiaram o acto e assunto encerrado.Um dia destes outros manifestantes poderão seguir a sugestão dos militares e seguir o exemplo dos nossos alunos, que não querem ser penalizados por faltarem às aulas.
Espero não ter de me cruzar com um manifestação de calceteiros, corro o risco de levar com um paralelepípedo de granito, e nem quero imaginar o que poderá suceder no dia em que o pessoal da recolha de lixo se manifestar, arrisco-me a apanhar com um saco do Pingo Doce cheio de restos de cozido à portuguesa.
É assim a nossa democracia representativa, cada um manifesta-se como quer e atira o que tem à mão.
Subscrevo inteiramente. Sem esquecer que isto tem tudo dedo político por trás. Se os professores, que aliás não têm razão nenhuma, andam a ser descaradamente utilizados pelo seu sindicato como arma de arremesso pelo PCP para substituir Carvalho da Silva por Mário Nogueira à frente da CGTP, aqui isto é demasiado malcriado para ser PCP. Isto tem notoriamente o dedo do BE.
PS - Não subscrevo a parte do "não têm razão nenhuma" Pedro. Algumas razões têm, se bem que na minha opinião não no essencial.

Quinta-feira, Novembro 06, 2008

Rose Parks, Martin Luther King e Barack Obama

Descobri no jugular a frase mais linda sobre estas eleições : " Rose Parks sentou-se para que Luther King pudesse marchar. Luther King marchou para que Obama pudesse voar ".
Para quem não reconhece os nomes, Rose Parks foi a costureira de Montgomery, Alabama, que se recusou a sair da sua cadeira para dar lugar a um branco num autocarro e a sua atitude foi das principais alavancas para o movimento pelos direito cívicos na década de 60. Martin Luther King liderou os movimentos de protesto e no seu célebre discurso " Eu tenho um sonho" em agosto de 1963 lançou os alicerces de uma sociedade que então não passava de uma miragem. Hoje, apenas passada uma geração, Barack Obama atingiu o que muitos sonharam, embora poucos tivessem a coragem de o afirmar, um negro é Presidente eleito dos Estados Unidos da América.
Poucos dos problemas que afligem e corroem a sociedade americana serão resolvidos com esta eleição. As guerras entre gangs de negros e hispânicos nos bairros degradados das cidades não cessarão, o déficit federal não desaparecerá facilmente, os soldados americanos não deixarão de alvejar nem de ser atingidos onde quer que andem pelo mundo. Chavez não ganhará juízo, o Irão não reconhecerá Israel, os Palestinianos não farão a paz entre eles e com os Judeus e a Coreia do Norte, ao contrário do que diz Bernardino Soares, continuará a investir rios de dinheiro em programas bélicos enquanto o seu povo morre à fome.
Não existem na política nem na geoestratégia varinhas de condão, apesar do campo ser fértil em ilusionistas. Barack Obama tem sobre os seus ombros o peso da esperança que criou e o lastro dos resultados que se lhe exigirão quase automaticamente. Não acredito que faça um décimo do que dele esperam, mas a política é isso mesmo, a gestão de vontades, a procura de soluções e a assumpção de prioridades, com todos, por todos e para todos, como escreveu Lincoln. Costuma-se dizer que as campanhas eleitorais são feitas em poesia e o governo em prosa. Obama não mudará o mundo mas pode mudar a forma como o mundo se relacionará e verá os Estados Unidos da América que, para infelicidade de muitos continua a ser o farol da Liberdade e da Democracia no planeta.
Digam o que disserem, o dia 4 de novembro de 2008 entrará na história. Há 40 anos Obama não poderia entrar em certos transportes públicos nem estudar em certas escolas. Há 60 não poderia servir no exército e há 100, apesar de previsto constitucionalmente, não conseguiria votar. Há 150 anos seria escravo, tal como os seus ascendentes e as suas lindas filhotas teriam nascido propriedade de alguém.
Muito precisa de mudar na sociedade americana mas por mais graves que sejam os problemas e as injustiças que lá resistem, há também isto, a capacidade de o filho de um pastor Queniano e de uma americana aos 47 anos nos lembrar que sim, tudo é possível, que sim, nós podemos.
" Se ainda anda por aí alguém que duvida que a América é o local onde tudo é possível, que ainda pensa se os sonhos dos nossos fundadores ainda estão vivos, que ainda se questiona sobre o poder e a força da nossa democracia, esta noite é a vossa resposta".
Barack Hussein Obama

Quarta-feira, Novembro 05, 2008

BOA NOITE DIREITA ESTÚPIDA!

Descobri via Jumento. Não podia concordar mais :
Como se sentirão os ideólogos do que resta da nossa direita nesta noite em que muito provavelmente os americanos recolocam os EUA na normalidade? A nossa direita é cartesiana e apoiou incondicionalmente McCain só por estar mais à direita, a situação é tão ridícula que muitas personalidades de um partido que se diz social-democrata apoiaram a candidatura de McCain, tal como já tinham apostado em Bush contra Gore. Tão estúpida nem a direita espanhol, o PP, um partido bem mais à direita do que o PSD, apostou em Obama.
Depois do desaparecimento dos liberais é a vez dos admiradores de McCain. Vale a pena ler o retrato que Pacheco Pereira fez de Obama no passado dia 4 de Fevereiro:
«Uma parte da nossa direita e de quase toda a nossa esquerda, mostra como o anti-bushismo não é bom para a qualidade do pensar. É que Obama, comparado com Hillary Clinton ou com John McCain, tem pouco lá dentro. Nem saber, nem experiência, nem consistência. Pode vir a ganhar tudo isto, mas para já não tem. Mais um produto da fábrica de plástico, jovem, simpático, bom ar, bom falador, muito teatro de convicções, e politicamente correcto na cor, nem muito preto, nem muito branco, mais um teste para a tese de Kissinger de que cada vez mais as condições para se ser eleito presidente nada tem a ver com as condições para se exercer bem o seu cargo.» [Abrupto]
Veremos o que vai dizer agora.

Quarta-feira, Outubro 29, 2008

O país do faz de conta

Li isto do Eduardo Pitta e gostei. Uma análise a reter.
Quando esta crónica foi publicada na LER, recebi mensagens a perguntar que história era aquela de, em 1982, os portugueses terem dificuldade em comprar (sem esquemas pelo meio) whisky ou bacalhau. Agora que pus o texto em linha, novo coro de perplexidade. Como os e-mails não trazem agarrada a idade do autor, presumo que seja malta nova, habituada desde a puberdade a ver em qualquer hiper oitenta marcas diferentes de whisky, whiskey e bourbon, uma dúzia de espécies de bacalhau (seco, fresco e congelado), e por aí fora. Pois é. E não era só o whisky e o bacalhau. Era também o arroz. Exactamente: o arroz. Em Cascais, onde então vivia, a Casa Príncipe, o Fauchon lá do sítio — transformada em agência Nova Rede no tempo em que a Nova Rede engolia tudo; já não existe, o Millennium extinguiu o segmento Pobrezinhos —, arranjava embalagens “de agulha” para clientes habituais. Já não falo de artigos de luxo, como queijos e champanhes franceses, chás ingleses, chocolates belgas, salmão escocês e produtos similares, todos de importação, que hoje encontramos ao virar da esquina. Onde é que eu quero chegar? À crise actual. Hoje não temos uma crise cambial, mas contra a falta de liquidez pouco podemos. No fundo, para que serve a garantia de 20 mil milhões de euros dada ontem pelo Estado, na pessoa do ministro das Finanças, ao sistema bancário? Serve para garantir o padrão de consumo dos últimos vinte anos. Padrão de consumo em que o crédito à habitação tem parte de leão. No início dos anos 1980, quando o crédito à habitação ainda não tinha começado a “democratizar-se”, as condições de concessão tinham um código espartano: praticamente sozinha no negócio, a Caixa Geral de Depósitos não tinha pressa (com cunha, a coisa resolvia-se em 3 meses; o normal era o dobro), a situação financeira do interessado era esmiuçada, o montante concedido não excedia 80% da avaliação do imóvel, o prazo da hipoteca não excedia 20 anos, etc. Ninguém sem emprego estável (no Estado, na banca, em empresas públicas ou firmas sólidas) há pelo menos 10 anos... se atrevia a pedir um empréstimo. Depois foi o bodo aos pobres. Nos últimos seis ou sete anos, gente desempregada, ou com emprego precariíssimo, fechou empréstimos em 48 horas para comprar andares com pavimento ondulante, lareira de granito, banheira de hidromassagem, tectos estucados, cozinha hi-tech, luz regulada, vidros duplos, estores eléctricos, garagem para dois carros, etc. Pais que na véspera se queixavam do desemprego da Xana ou do João, taditos, «tiraram relações internacionais e não arranjam nada», gabavam-se no dia seguinte do T3 que a Xana ou o João tinham comprado em Telheiras ou no Parque das Nações, não por irem constituir família, mas por terem direito... à sua privacidade (ou seja, à queca do fim-de-semana). Ouvi conversas destas até à náusea. Receio bem que este padrão tenha de mudar. Porque se o aval de 20 mil milhões de euros servir para garantir o país do faz de conta, então caminharemos alegremente para o abismo.

Brigitte Bardot vs Sarah Palin

Gosto de piadas. Por vezes até podem ser racistas, machistas ou outros istas quaisquer, só é preciso é que tenham piada. Descobri este post no Contra Capa e gostei. Porque é que Brigitte Bardot não arrancaria a pele a Sarah Palin se a encontrasse ? É que Bardot não gosta nada dessa cena de esfolar animais vivos.

Segunda-feira, Outubro 27, 2008

Eleições americanas




Para não me acusarem de fazer previsões depois do fim do jogo, aqui vai a minha aposta : Barack Obama vai limpar as eleições e de goleada. Se não me enganar, 396 votos no colégio eleitoral contra os 142 de McCain. Se eu falhar por muito, sintam-se livres para vir cá gozar-me.

Os capitalistas devem estar loucos

Com a crise financeira o disparate anda à solta, governantes, partidos da oposição, comentadores, economias e cidadãos comuns desataram a teorizar sobre o mercado financeiro e a exigir regulação, Num dia o mercado é uma roleta, no outro sabemos que o dinheiro da segurança social andou nessa roleta, num dia garantem-nos que há uma mão invisível e no outro asseguram que os que acreditam na mão invisível confiam no maneta.
Mas afinal o que é o mercado financeiro? Imaginemos que um chinês que trabalha numa fábrica têxtil em regime de cama quente, alimentado pela esperança de vir a ser mais rico do que o Stanley Ho, decide investir as suas poupanças. Se não for viciado no jogo, em vez de apanhar turbo jet para Macau vai à agência do Banco da China e investe num qualquer fundo. Por sua vez, o Banco da China junta todos estes investimentos e vai procurar investimentos na bolsa de Hong Kong, provavelmente reinveste num fundo de investimento de um banco internacional, este vai vender o dinheiro a um banco português que precisa dele para emprestar a crédito ao senhor Silva que pretende comprar um apartamento para a filha. Tanto podia ser o senhor Silva, como o senhor John que vai comprar uma casa em Chicago ou senhor Suarez, um pequeno comerciante da Colômbia.
O mercado financeiro teve a virtude de fazer com que o dinheiro do senhor Chang permitisse à filha do senhor Silva ter casa, porque quem casa quer casinha. O senhor Silva nunca há-de ouvir falar do senhor Chang e ficará eternamente grato ao senhor Ricardo Salgado ou ao banqueiro local que lhe fez o especial favor de emprestar-lhe o dinheiro que vai fazer a felicidade da filha. Nem o senhor Silva, nem o senhor Chang, nem mesmo o senhor Ricardo sabem as voltas que o dinheiro deu, o dinheiro circulou à mesma velocidade com que se acede a uma qualquer página Web.
Se no meio de todo este circuito houver um senhor Ricardo mais maroto e descobrir que pode ganhar muito mais se em vez de ter emprestar apenas ao senhor Silva, desatar a emprestar sem critério e sem se assegurar de que os clientes do banco vão poder pagar o empréstimo, é muito provável que o senhor Chang se venha a arrepender de ter depositado o dinheiro no banco em vez de o estoirar num casino de Macau.
Como vamos regular isto? Se o dinheiro fosse um queijo seria fácil, por cada passagem numa alfândega chamavam-se as autoridades sanitárias competentes, que certificariam a qualidade. Os queijos não poderiam ser armazenados em armazéns manhosos como as off-shores e quando o senhor Silva decidisse banquetear a família com um queijo chinês, acompanhado de um carrascão não haveria problemas. O queijo ostentaria um etiqueta com letras a amarelo assegurando que o produto era proveniente da queijaria do senhor Chang, em Hong Kong, indicaria a data de fabrico, o teor em gordura, o nome do importador português e passaria pelo crivo da ASAE. O senhor Chang receberia o dinheiro e o senhor Silva não teria que ira a correr para o wc mais próximo agarrado às calças.
Só que o dinheiro não são queijos e fazer fluir biliões e biliões de dólares de forma a que o dinheiro de quem poupa chegue a quem dele precise e esteja disposto a remunerá-lo não é coisa para peritos veterinários. O dinheiro não circula com etiquetas nem tem certificação de origem, quando isso suceder voltaremos ao sistema financeiro do século XIX.
É evidente que são necessárias regras, principalmente regras penais para quem vicie as regras do jogo, mas pouco mais se poderá fazer. A actual crise financeira poluiu o mercado financeiro com títulos que agora chamam tóxicos, o mercado está tão poluído como as costas do Alasca quando o Exxon Valdez se afundou devido à irresponsabilidade de um comandante. Vai levar algum tempo para que os danos desapareçam, até que a poluição deixe de se fazer sentir no mercado.
Depois a confiança regressará e o senhor Chang voltará a fazer os seus depósitos, até porque só tem duas alternativas, ou ser roubado pelo banqueiro se depositar o dinheiro no banco, ou pelo mafioso da sua rua se o esconder debaixo do colchão. Só que o senhor Chang descobriu que há leis para meter o mafioso na cadeia, enquanto o banqueiro rouba e ainda recebe um prémio.
Por cá o Lidl queria prender uma cliente por supostamente ter roubado um creme de 3,99, na América os banqueiros que receberam milhões em prémios para tramarem milhões de senhores Chang vão voltar a receber prémios por resolverem a crise dos seus bancos com o dinheiro de milhões de senhores Silvas.

Segunda-feira, Outubro 20, 2008

Eu sei que sou distraído porra !

Se quem estiver a ler isto me conhecer de algum lado, o que é bastante provável, sabe muito bem a razão do título deste texto. Aliás, se fizesse uma sondagem a todas as pessoas que passaram pela minha vida nos últimos 15 anos e lhes pedisse que nomeassem uma característica que me identifique, tenho a certeza que “Distraído” seria a resposta natural (não tenho assim tanta certeza mas como as outras hipóteses são bem piores agarrei-me a esta).
Todas as pessoas têm momentos de distracção, é a coisa mais natural do mundo, agora quando digo que sou mesmo distraído é porque em mim esse é um comportamento que assume particular gravidade. Eu esqueço-me de quase tudo e, de acordo com as leis de Murphy, sempre nos piores momentos possíveis. Já me esqueci de códigos e passwords, desde o do multibanco ao do telemóvel passando pelo do email. Já inventei menemónicas para me recordar desses códigos, menemónicas essas que foram esquecidas tão ou mais depressa do que os códigos originais. Andei 6 meses inteiros com o BI fora de prazo e, apesar de já ter tratado da renovação, não faço a mínima ideia de onde pus o comprovativo de que estou a regularizar a situação e duvido que venha algum dia a lembrar-me do prazo para levantar o cartão novo. Já fui multado por me ter esquecido da inspecção do carro, o que visto à distância nem parece muito grave, principalmente tendo em conta que já fui chamado a tribunal por me ter esquecido de pagar a multa e até já fiquei empenado na estrada umas quantas horas por não saber onde tinha o adaptador que me permitiria desapertar as rodas para trocar o pneu.
Como professor que sou, tenho inerente à minha licenciatura um mestrado em burocracia aplicada e um doutoramento em preenchimento de papeis inuteis. Obviamente que chumbei nos dois com olímpica mediocridade visto que tenho uma tendência natural para perder papeis, ou, no mínimo, esquecer-me de os preencher ou até mesmo não saber onde os pus depois de os ter preenchido correctamente. O facto de ter conseguido dar umas aulinhas no intervalo da burocracia durante onze anos e não ter sido preso só se justifica partindo do princípio que alguém andou mais distraído do que eu. Não tenho o sentido de perspectiva que permite à maioria das pessoas no domingo à tarde saberem exactamente o que vão fazer quinta-feira às 17h43m. Eu não tenho essa capacidade de organização, facto que já me levou a comprar uma agenda para me ajudar há uns anos atrás e, em minha defesa, tenho a dizer que precisei de três semanas inteiras para a perder.
Já preparei surpresas que me esqueci de fazer e também já comprei prendas que não me lembrei de oferecer. Se algo ou alguém me aborda ou interrompe à porta de uma cantina ou restaurante dou comigo por vezes a pensar se estaria a entrar ou a sair sem ter a certeza de já ter comido. Quando interrompo a leitura de um livro é frequente não saber bem onde ia e, apesar de mais raro, também já aconteceu não me lembrar do livro que estava a ler.
Tenho funções novas este ano, estando destacado na Direcção Regional de Educação. O edifício da DREALG é das construções mais simples que alguém possa imaginar. É um quadrado com todos os seus 4 lados e com 4 ângulos rectos inteirinhos. É daquelas construções onde é impossível uma pessoa perder-se porque, mesmo que se perca, caminhando na mesma direcção encontra sempre a saída. A primeira vez que vim cá apresentar-me, ao dirigir-me para a rua, obviamente perdi-me e só fui encontrado na segunda feira seguinte de manhã por uma equipa do CSI Miami escondido atrás de uma porta a comer a terra dos vasos. Não pensem que esta é a única história que tenho no emprego novo. Na semana seguinte a picar o ponto (basicamente corresponde a passar um dos dedos previamente definidos numa maquineta, o que é óptimo porque me obriga a ter as mãos lavadas pelo menos duas vezes por dia) as coisas não estavam a funcionar bem. Passei vezes sem conta o dedo pré-definido e nada, parti logo do princípio que me tinha esquecido do dedo certo e como tal, passei os outros nove, a ponta do nariz e quando me começava a descalçar para passar os dedos dos pés alguém me disse que tinha que carregar na tecla #, facto que obviamente já tinha olvidado. No meio de todos estes desastres de planificação de gestão diária, devo referir que não costumo esquecer-me de comparecer a encontros e que nesse aspecto sou religiosamente pontual, mas, conhecendo-me como me conheço, isso não é uma virtude e aposto que é apenas porque me esqueço de chegar atrasado.
Nunca compreendi muito bem o quê é que as pessoas têm contra os distraídos. Aliás, considero que chamar a alguém de distraído é uma atitude um pouco arrogante porque o que estamos a afirmar é que nos sentimos incomodados pelo facto de a outra pessoa ter a lata de estar concentrada em algo diferente do que nós queriamos. No entanto, o que me leva mesmo à loucura são as pessoas que atribuem este tipo de situações à falta de responsabilidade ou imaturidade. Quem raio são vocês que não se apercebem de um pôr do sol se não o marcarem na agenda para me acusar do que quer que seja ? Irresponsável ? Eu ??? Não me lixem pah !
Como escreveu uma amiga de um amigo comum num comentário no meu blog : “ … afinal de contas cada um não é um … somos muitos dentro de um só…”. É exactamente o que ando a querer explicar há anos. Carrego em mim muitas vertentes e muitas facetas e, confesso, tenho alguma dificuldade em pôr em prática a correcta no contexto certo. Sou o professor e o político, o amigo das galhofas e o tipo das conversas sérias. Sou o desprendido e o apaixonado, o bonacheirão, o colérico e, segundo alguns, até mesmo o poeta, o romancista e o guru. Sou-o todos os dias apesar de vós normalmente apenas repararem no que mais vos agrada ou no que mais detestam. Como escreveu José Gomes Ferreira, sou como uma nuvem que a todos parece uma coisa diferente, sendo que muito dificilmente algum de vocês consegue ver a panorâmica completa.
Se me acham distraído é porque não tenho medo nem receio de ceder à minha complexidade. Se acham as minhas atitudes irresponsáveis, experimentem pensar que quando devia estar a preencher um papel estou a pensar num problema da minha Junta de Freguesia, quando devia estar a comer estou a sonhar, quando devia estar concentrado a olhar-vos olhos nos olhos durante uma conversa estou apenas a tentar resolver um problema que apareceu no trabalho e ao qual não liguei nenhuma porque estava a apaixonar-me por alguém que ainda não descobri se existe.
Chamem-me distraído, infantil, imaturo e irresponsável, estejam à vontade, já nem sequer quero saber. Posso até levar a mal num primeiro momento mas mais cedo ou mais tarde vou-me esquecer, a vida é bela demais para guardar lastro em cima dos ombros e eu, o que quero verdadeiramente é ser feliz. Para quê que me vou chatear por não ver o sol brilhar até ao último dos seus dias tendo a certeza que ele brilhará até ao último dos meus ?