Em jeito de balanço, há algumas coisas que queria dizer sobre a participação de Portugal no mundial de futebol.
1 – Já não tenho muita paciência para selecções de futebol, confesso. Não sei bem quando começou o divórcio nem quando o mesmo se oficializou, sei que o meu clube me faz vibrar muito mais do que a selecção. Tempos houve em que as selecções eram o conjunto dos nossos melhores jogadores. A globalização futebolística ainda não tinha atingido a dimensão actual e quando olhávamos para a convocatória dos seleccionados, quase todos eles jogavam em Portugal além do facto de serem mesmo todos Portugueses. Hoje isso mudou. Nem venham com a conversa da xenofobia porque quem me conhece sabe que não tenho uma única molécula de ódio a estrangeiros no corpo, mas há coisas em que não faço compromissos. Liedson, Pepe e Deco são Brasileiros, ponto final. Como eles, há uma profusão de outros jogadores que não jogam no país de origem, tendo optado por outros onde encontraram mais oportunidades. O fenómeno generalizou-se e, em vez de selecções nacionais cada vez há mais selecções de naturalizados. Assim, não contem com o meu apoio para estas provas.
2 – Carlos Queiroz é uma vítima clara daquilo que é conhecido como o “princípio de Peter”. Segundo essa sábia fórmula, uma pessoa por vezes desempenha tão bem o seu papel que se convence que pode dar o salto em frente. Quando o faz, espalha-se porque foi incapaz de perceber que o seu nicho era no degrau inferior. Queiroz foi um excelente treinador de camadas jovens, um excelente adjunto e planificador de treinos, como treinador principal é uma daquelas nódoas que nem com benzina saem. Falhou no Sporting quando tinha o melhor plantel de Portugal, falhou no Real de Madrid com mais estrelas que o planetário de Lisboa, falhou uma vez na selecção e agora cumpriu o seu cruel destino mais uma vez. Queiroz é medroso, joga na expectativa do que faz o adversário, não arrisca e é incapaz de incentivar um leão esfomeado a atacar uma gazela com as patas partidas. Portugal nunca teve nos dois últimos anos uma consistência de jogo, nunca mostrou querer ganhar sem ser à custa da inspiração momentânea dos seus jogadores. Neste contexto alguém se surpreende de termos sido eliminados pela campeã europeia nos 1/8 de final ? Eu surpreendo-me por termos lá chegado.
3 – Que dizer do CR ? Bem, que não fiquem dúvidas que o considero um excelente jogador de futebol e um predestinado com a bola nos pés. Pronto, agora posso passar ao resto. O tipo é vaidoso e arrogante, o que pode ser à vontade, mas tem que estar preparado para lhe serem cobrados resultados. Mourinho diz o que quer quando quer e no fim quem não gosta, ouve e cala porque ele ganha, se Ronaldo quiser ter direito ao mesmo, que ganhe. Muitos podem defendê-lo dizendo que Portugal espera muito dele. É verdade que espera, e esse sentimento foi cultivado e fomentado por ele. Quando um jogador de futebol escolhe fazer do seu nome uma marca e decide que tem que aparecer sempre nas notícias seja de que forma for, tem que arcar com as consequências que essa mediatização traz. Ronaldo decidiu que a sua carreira não passava só pelos relvados, decidiu que também tinha que passear pelas revistas cor-de-rosa como uma mariposa metrossexual a arranjar namoradas novas todas as semanas, decidiu que havia de chegar ao estágio da selecção de helicóptero. Mais uma vez estava no seu direito, agora quando promete explodir no mundial, quando afirma ser o maior do mundo e arredores, que cumpra, caso contrário faz figura de urso. Ponha os olhos no Messi que dispensa toda essa publicidade e faz jogos de sonho, quer no clube, quer na selecção. Outra coisa, Ronaldo não sabe reagir a contrariedades. Basta algo correr mal para mostrar o puto azeiteiro que ainda é. Foi uma vez no estádio da Luz a ofender os adeptos, foi ontem de novo a cuspir na direcção da câmara televisiva. Não podemos ter como capitão alguém que reage como ele reagiu. É na derrota que se vê o carácter dos homens e este tipo já mostrou o carácter dele, e mais do que uma vez.
4 – O caso Nani não passou de outra palhaçada inominável. Segundo percebi, ele lesionou-se num ombro em Portugal, foi para a África do Sul, jogou 90 minutos contra Moçambique e depois descobriram que não estava apto nem era recuperável para o mundial. OK, eu também gosto muito de ficção científica mas não a vendo aos outros como verdade. Espero que tenhamos agora direito a uma explicação mais real do que aconteceu.
5 – A asneira toda começou quanto a mim na convocatória. Não percebo alguns nomes e nunca vou compreender a ausência de outros. Paulo Ferreira e Miguel estão ou em baixo de forma ou não jogaram quase nada durante o ano. Onde estava o João Pereira e o Rúben Amorim (que acabou por ir para se lesionar) ? Não faziam falta, o Ricardo Costa podia fazer a posição com a proficiência que vimos ontem. Deco quase não jogou este ano, e mesmo aceitando que é um génio que pode resolver jogos, onde estavam os substitutos para a sua forma intermitente ? João Moutinho e Carlos Martins mereciam o bilhete de ida e Nuno Assis talvez não destoasse muito. Como é que se gastou uma vaga com um Pepe que não se sabia se recuperava e tinha-se a certeza que se recuperasse não teria ritmo de jogo ? Enfim, contradições a mais para quem um dia disse que com ele jogavam sempre os melhores e na melhor forma.
6 – Para a despedida fica o balanço. 4 jogos, uma vitória a uns tristes e mortos de fome que jogaram aberto connosco, 2 empates e uma derrota. Para mim é manifestamente pouco. Elogiam a nossa defesa que só sofreu um golo, eu lamento só termos marcado à Coreia do Norte. De resto, sobram as histórias mal contadas, as bocas mandadas para serem corrigidas depois, o costume. Lá voltamos com as mãos a abanar e envoltos no nevoeiro de intrigas do costume. Deve dar para aguentar as rotativas dos jornais por uns tempos, pelo menos até começarem os jogos de pré-época do Benfica e voltarmos a ver futebol a sério.


Há dias estranhos. Estou a falar a sério, há dias em que quase nada faz sentido a não ser a certeza que o tempo vai continuar a passar e vai levar-nos para outro tempo qualquer. Ontem foi um desses dias.


Cheguei a casa sabendo que não ia lá ficar, saí sabendo que não tinha para onde ir. Como costume nestas situações, acabei nas margens da Ria Formosa. Subi do T à marina, desci no sentido inverso. Andei, dancei e nadei junto à Ria e, depois de um pôr do sol inebriante, decidi que era dia de me estragar com mimos. Fui a um restaurante Indiano cá do burgo e sentei-me na esplanada à espera de uma refeição.


Fui atendido por um Indiano simpático e porreiro. Depois de pedir a minha galinha grelhada com cebola e pimento recostei-me na cadeira a assistir à montagem dos festejos do S Pedro que se iam realizar no largo em frente à esplanada do restaurante.


Chega uma empregada morena com a minha taça de vinho e com uma cesta de pão de alho. Três dos seus dedos vão estrategicamente colocados dentro do cesto, com uma das suas unhas a roçar eroticamente numa das fatias. É óbvio que não vou comer isso, mas hoje também não estou com paciência para lhe esfregar o livro de reclamações no seu sorriso lindo.


Entretanto no largo, um tipo com um aspecto horrível faz testes de som. Coloca um CD do Quim Barreiros e, perante uma acéfala salva de aplausos, eleva o volume até ao expoente do desespero. Começa o meu inferno. Depois do inevitável snif no bacalhau da Maria, vem um gajo qualquer com voz de tuba desafinada a ameaçar lamber uma coisa qualquer a uma emigrante, espero que fosse o passaporte. De seguida continua com o Zé Cabra a explicar que deixou tudo por ela, incluindo a voz e a letra da música. Tudo é mau demais para ser real. Estou num filme do Fellini, produzido pelo João César Monteiro e com banda sonora do Zé Cabra.


Chega a comida. Talvez agora tudo melhore um pouco. Mas não, este foi apenas mais um dos meus pensamentos imbecilmente optimistas. Três putos invadem o espaço nas suas bicicletas a tocar vuvuzelas ao ritmo do desvario. Juntos, com a música pimba por trás, soam a uma manada de rinocerontes fêmea com cio a ser violadas por uma matilha de caniches maníaco-depressivos. Fui barbaramente extirpado da minha terra natal e enxertado no sétimo círculo do inferno. Devoro a comida à velocidade dos movimentos peristálticos do meu esófago e chamo a morena para recolher o muito que sobrou e para me trazer um café para que possa fugir para longe. No auge da sua boa vontade ela recolhe a travessa do frango, bem como a do arroz que transporta num ângulo de fazer corar de vergonha a torre de Pisa e deixa atrás de si um rasto que torna a experiência de Hensel e Gretel numa pífia tentativa de cartografar um caminho. Volta. Segura o cesto do pão intocado e ao tentar agarrar o copo de vinho quase cheio com as suas garras disformes, entorna-o na mesa e por cima de mim. Ao som da mais medonha pimbalhada e dos três putos a guinchar como se fossem anjos do apocalipse deito-lhe um olhar de puro ódio, temperado por ira e polvilhado por bocadinhos de raiva assassina. Consigo balbuciar um “não se preocupe, azares acontecem” que soa a “oh sua burra de merda, desaparece-me da frente antes que te foda o focinho à biqueirada”. Afasta-se. Enquanto sinto a tensão arterial a entrar na ionosfera, volto a concentrar-me no espetáculo Dantesco que se desenrola no largo.


Entretanto algo muda. Um dos javardos atrapalha-se, a bicicleta foge ao controle da sua vontade, dança em desequilíbrio  e ambos se espalham no espaço residual entre duas mesas. Nunca saberei descrever a beleza ergonómica daquele movimento, nunca serei capaz de citar uma lei física que explique como ele deu origem à sequência infindável de ocorrências que se seguiram, como se uma peça de dominó empurrasse inexoravelmente as restantes em direcção à eternidade.


A bicicleta estatela-se, o puto cai, a vuvuzela voa, as mesas tremem. Numa delas a mesa de mistura dança mal humorada como se de um protesto laboral se tratasse, o leitor de CDs, esse, entrega-se à inevitabilidade da força gravítica e beija a calçada num estertor de paixão e de morte. Na mesa do lado uma pilha de CDs mergulha quixotescamente em direcção ao instrumento que estava preparado para lhes dar sentido. O puto está no chão. Tem por cima a bicicleta, bem como uma miríade de CDs, que num strip tease final se despiram das suas capas de plástico, por baixo está o leitor, agora reduzido ao silêncio. Num dos cantos do largo, levanta-se uma mulher que não tem mais de 40 anos e não aparenta menos de 60. Desloca-se com a graciosidade de uma retroescavadora e, ao chegar junto do puto choroso, aplica-lhe com a precisão cirúrgica de uma motosserra um par de bofetadas que, se houvesse justiça neste país, seriam classificadas pelo IPPAR como património cultural. Ao mesmo tempo, do mesmo local, levanta-se uma velhota com idade para ser tia-avó do Matusalém e desata a xingar os outros dois putos num idioma incompreensível para quaisquer ouvidos humanos.


A mãe berra, a velha rosna, o dono da aparelhagem lamenta-se, os ranhosos dos putos choram. Eu, bem, eu rio interiormente com uma alarvidade sádica. O leitor de CDs calou-se, as vuvuzelas foram sonoramente exiladas, os putos foram chorar para o beco. Chega o meu café ao mesmo tempo que o homem do som se rende às evidências e liga o rádio. Ouço a parte final do “have you seen my baby” dos Rolling Stones, de seguida sou brindado pelo “Russians” do Sting e, enquanto fumo um cigarro que me sabe a redenção, o Tom Petty canta-me o “cuts you out”. Fui trazido de volta à realidade depois de uma travessia por um deserto de horrores.


Pago, despeço-me do Indiano simpático e da morena desastrada. Faço-me ao caminho que ainda vou andar quatro ou cinco quilómetros antes de voltar a casa. Vou alegre e sorridente, a vida acabou por me fazer justiça. Como diz o conhecido ditado popular, “uma vuvuzela toca direito por notas tortas”.

Nó Górdio

Reza a lenda que um rei da Ásia Menor morreu sem deixar descendentes. Reza a lenda que um Oráculo qualquer previu que o futuro rei chegaria a conduzir um carro de bois. Segundo a mesma lenda já muito rezada, esse rei, de nome Górdio, amarrou o seu carro de bois a uma coluna, para que ninguém se esquecesse das suas origens humildes. A mesma lenda, já transformada numa ladaínha, diz que o tal de Górdio morreu sem descendentes (que raio faria aquela gente para se divertir ?) e que o Oráculo do costume previu que a Ásia Menor só voltaria a ter um rei quando alguém conseguisse desatar o nó de Górdio. Passados muitos anos esta história foi conhecida por Alexandre, o Grande. Segundo a tal lenda, o mesmo deslocou-se à dita cidade e, ao ver o nó dado muitos anos antes (nem quero imaginar em que estado estariam os bois), sacou da sua espada, cortou o nó, e reinou na Ásia Menor, tal como nos outros 378 territórios e países que conquistou, e sem carros de boi como adereços.
Moral da história, ou melhor, moral da lenda, o Nó Górdio fica como um exemplo de como é possível resolver problemas complicados de uma forma simples. Como devem calcular, é uma das minhas lendas preferidas, eu que tenho como uma de muitas alcunhas, "o simplificador implacável".
Detesto complicar coisas que são naturalmente simples quase tanto como adoro simplificar coisas aparentemente complicadas. Acho que vem dos tempos da matemática no ensino secundário em que a melhor coisa que me podiam fazer era pedir para simplificar funções. Continuo a considerar o acto de reduzir ao mesmo denominador para cortar, mais do que uma manha matemática uma atitude perante a vida.
O nosso dia-a-dia é como uma equação com dezenas ou centenas de incógnitas. Aceito isto, é natural que vivamos no reino do caos já que vivemos rodeados de outras pessoas que têm os seus próprios caminhos, os seus próprios sonhos, os seus muito próprios medos. Respeito isso, não me peçam é para submeter a minha simplicidade a confusões alheias.
Mas afinal de contas, serve isto tudo para quê ? Para vos dizer que tenho à minha frente um nó górdio que não ata nem desata e estou com dúvidas sobre o que fazer a seguir (sim, sou dos que têm dúvidas de vez em quando e se pensam que sou fraco ou inseguro por isso, peguem nos vossos rabiosques e desapareçam-me do blog e da vista seu bando de otários(as)). Dava-me jeitinho um conselho sabem, não é que o vá seguir, mas pelo sim pelo não sabia-me bem.
Olhem, deixem lá, vocês têm razão. Vou mas é afiar a espada.

Rostos

Li esta manhã no Diário de Notícias uma citação de Abbas Kiarostami que não me sai da cabeça. Segundo ele, "Os rostos são as paisagens mais dramáticas de todas".
Não discuto. Não estou em posição de o fazer, e, mesmo que estivesse, não sou ninguém para pôr em causa afirmações deste calibre, baseadas claramente em experiências de vida que não conheço nem compreendo. No entanto, o Kiarostami que me perdoe, mas direi mais algo sobre o assunto. E fá-lo-ei por um único e simples motivo, o teu rosto. Já que tenho uma arma poderosa para embirrar com um citação que, como escrevi há segundos atrás, não ia discutir, nada como usar essa arma e esperar que a minha contradição passe despercebida.
O teu rosto é simples. Não tem nada de exuberante nem de espampanante, tal como as melhores obras de arte, é nos pormenores que se reconhece. Não é demasiadamente redondo nem angularmente quadrado. Não é esguio e comprido, nem reduzido e delgado. É apenas o teu, e sinceramente, não poderia ser de mais ninguém, tal como não poderias ter outro diferente. Costumo perder-me em segredo nos teus cabelos. São longos mas não demasiado compridos, mais do que encaracolados, são simplesmente revoltos. Por mais que os tentes pontualmente esticar, não funciona. És daquelas pessoas cuja alma se apropriou de partes do corpo, tendo o processo começado exactamente pelos teus cabelos. Transmitem muito mais de ti do que as tuas palavras. Não são só revoltos, são livres, enérgicos, por vezes até caóticos, mas vê-los descer dessa tua cabeça brilhante, vê-los acariciar o teu rosto com essa melena branca envergonhada é mais do que estou habituado a pedir quando peço por momentos de simples beleza.
Depois há as tuas sobrancelhas, adoro-as. Essas sim dão bem nas vistas. Parecem traçadas a carvão num quadro de óleo. Firmes, imponentes, por vezes dá a sensação que foram cavadas como uma trincheira. São elas as principais responsáveis pelo tal ar de intimidação que dizes transmitir às pessoas. Para mim são apenas um escudo. São um escudo protector para os teus olhos, que de tão naturalmente castanhos, só se afirmam pelo olhar. Que seria desse teu olhar cheio de ternura envergonhada se não se pudesse esconder atrás das tuas sobrancelhas ? Que imagem conseguirias passar de ti mesma se todas as pessoas te conseguissem olhar bem no fundo do teu olhar sem que nada te protegesse ? Considero-me um privilegiado por fazê-lo frequentemente, mas sinceramente mereço-o. O teu olhar é o calcanhar de Aquiles de toda a tua fortaleza. Não foi fácil percebê-lo, mas foi lindo descobri-lo. Todas as pessoas num dado momento deixam que venha à superfície o que têm de mais valioso guardado num cofre mágico a que chamam de coração. Nem todas têm contudo a noção que o fazem, nem todas conseguem compreender que não é possível esconder segredos para sempre. Os teus, é através do olhar que se revelam, e quando isso acontece, só apetece mergulhar, viver, sonhar e morrer nesse olhar.
Podia ainda falar da tua boca e da forma como promete fontes de água inesqueciveis para quem a beber. Podia falar do teu nariz que goza com o conceito Aquilino das Deusas Gregas, podia ainda refugiar-me nas tuas orelhas onde tantas vezes quero entregar palavras que só para ti inventei mas não o vou fazer agora. Já só consigo pensar nas tuas rugas de expressão que se espalham concêntricas na tua face quando sorris. São responsáveis por esses risos e sorrisos abertos e envolventes que conseguem inundar uma sala, com jeitinho, aposto que conseguiriam inundar uma vida.
É como te digo, o teu rosto é uma daquelas obras de arte que sendo singelo no todo é magnífico nas várias partes que o constituem. Como já disse, não sou ninguém para pôr em causa a citação de Kiarostami, mas, ninguém me pode contradizer quando eu afirmar que, se ele te conhecesse, a citação teria sido : "Os rostos são as paisagens mais sublimes de todas".

cavaquices

Como se devem ter apercebido, não fui um grande fã de José Saramago. Independentemente deste facto, reconheço-lhe uma grande qualidade literária e não tenho o mínimo problema em assumir que foi um homem que elevou e dignificou o nome de Portugal. Neste sentido só posso deixar um comentário à ausência do Presidente da República durante as exéquias do escritor prémio nobel. Cavaco é um vulgar palerma, um triste ressabiado que usa o cargo máximo da nação para acertos de conta pessoais. Tem uma tacanhez provinciana, uma ausência de dimensão de estado e o seu consulado é um escarro nas paredes do palácio de Belém. O homem saiu de Boliqueime mas Boliqueime nunca saiu dele. Houvesse uma figura de peso a enfrentá-lo nas presidenciais e ia para o caixote do lixo da história mais depressa do que engolia uma fatia de bolo rei.

A banheira de Arquimedes

A ciência também tem os seus mitos. Não basta o ritual do método científico que pouco significa, como também existem histórias quase mitológicas que funcionaram e funcionam como inspiração para gerações e gerações de cientistas.
Arquimedes pertence a esta galeria. Foi um matemático, astrónomo e inventor que viveu em Siracusa, então uma cidade Grega. Arquimedes foi o primeiro a calcular o número Pi, abriu as portas à hidrostática e à mecânica de fluídos e criou o princípio das alavancas, na sequência do qual produziu a famosa citação "Dêem-me um ponto de apoio que eu levantarei o mundo", citação essa hoje aplicada por José Mourinho sob a forma de "Dêem-me uma equipa de futebol que eu levantarei uma taça".
Agora a história de Arquimedes que virou um verdadeiro mito passou-se quando lhe foi colocado um problema quase insolúvel. Um manda chuva lá do sítio pediu-lhe que descobrisse uma forma de se certificar que a coroa em ouro que tinha encomendado era mesmo 100% ouro, ou se estava mafiada por metais mais baratuchos. Conta-se que um belo dia estava Arquimedes na sua banheira quando foi atingido pelo relâmpago da inspiração, ao que saltou banheira fora e desatou a correr nu pelas ruas de Siracusa aos berros "EUREKA, EUREKA". Este mito passa-nos a ideia que as inovações e descobertas científicas dependem muito da inspiração do momento, como se num instante mágico tudo se resolvesse nas esquinas perdidas das nossas sinapses cerebrais, como se raios de luz invadissem imparavelmente o caos de escuridão em que nos encontrávamos. Hoje em dia, tenho como opinião que os avanços e descobertas científicas dependem muito mais de planificação, perseverança, capacidade de resistência ao falhanço e estoicismo para aguentar bolsas congeladas há quase 10 anos, bem como total ausência de protecção social de que padecem os nossos jovens cientistas. É claro que é confortante e inspirador este mito. Conforta pensar que num momento tudo se pode desbloquear, e, conforta ainda mais, pelo menos numa ou duas dúzias de casos que conheço, imaginar jovens cientistas a correr nuas pelos campus universitários a gritar "EUREKA, EUREKA".
A realidade é que o mito de Arquimedes focado no final, na resolução do problema tende a fazer-nos esquecer que o processo, o caminho para lá chegar, esse sim é que é fundamental. Em última análise, preocupamo-nos demasido com o fim e tendemos a descurar o meio, o que torna tudo o resto possível.
Afinal consegui descobrir isto.
EUREKA !


Tive uma infância privilegiada. Vivi dos nove meses aos oito anos e meio perto de Oeiras numa urbanização chamada Alto da Barra. Era formada por um conjunto de vários prédios dispostos em U com campos relvados recheados de árvores no meio. Cada prédio tinha 6 lotes, cada um com 8 andares e dois apartamentos por andar. Eu vivia no bloco A, no lote 5, 1º esquerdo.
Na parte traseira do meu prédio havia um descampado enorme, onde todos os disparates eram possíveis e onde vieram a construir um centro comercial, construção essa que teve a minha decisiva influência, como verão em textos futuros. Para lá do Alto da Barra estava a famosa marginal. A marginal era um instrumento de tortura à margem das convenções de Genebra para todas as pessoas que se metiam nela na linha de Cascais, na esperança de um dia chegar ao emprego, sim, naquele tempo costumávamos ouvir falar de auto-estradas e de vias rápidas mas eram conceitos muito estranhos, como se de mitos urbanos se tratassem.
Do outro lado da marginal estava a felicidade. A felicidade nesses tempos adquiria a forma de uma praia com um pedaço de areia rodeado de rochas, com dois imponentes esgotos, um de cada lado, a vigiar o que algumas centenas de pessoas conseguiam fazer naquele pequeno espaço inundado em porcaria.
Antes de chegar à praia tínhamos que descer umas escadas e antes de chegar a essas escadas passávamos por uma espécie de café/geladaria com uma esplanada enorme. No caminho para essa esplanada havia uma pequena rotunda relvada com uma placa pré 25 de Abril que nos recordava tudo o que era proibido fazer e um pouco mais à frente havia uma piscina da qual também vos falarei. Hoje, o que interessa é ir ao parque infantil, que ficava à direita de quem seguia na direcção do tal esgoto gigantesco com areia no meio.
Conheci muitos parques infantis na minha vida, alguns como criança, outros como criança com mais idade, mas aquele foi sem dúvida o melhor. Quando entrava tinha ao meu lado esquerdo uma construção a imitar um pombal, ou talvez fosse mesmo um pombal do qual os pombos se tinham demitido, talvez por alguma reivindicação laboral. Ao lado direito estava um cavalete que eu insistia em trepar apenas para descobrir que se pode cair sempre de forma diferente magoando partes diferentes do corpo, ao contrário dos gatos. Se andasse em frente passava por umas figuras de ferro retorcidas que davam a um bidon de combustível vazio o aspecto de um cavalo com trissomia XXI, mas a malta nem se importava muito com isso, giro giro era passar as tardes em cima das ditas figuras cavalares a imitar as perseguições a cavalo que víamos no Bonanza. O facto de nunca sairmos do lugar não interessava nada, às vezes trocávamos de cavalo para não serem sempre os mesmos a andar atrás dos outros. Depois dos cavalos estavam os baloiços. Uns pequeninos como se impunha, outros enormes, como se desejava.
A seguir aos baloiços estava uma das extremidades de uma réplica maravilhosa da ponte 25 de Abril, ponte essa que atravessava longitudinalmente todo o parque e nos levava à zona dos escorregas, onde existiam alguns pequenos e 4 deles enormes, aí com uns 10 metros de altura que então pareciam ser quilómetros. Um dia alguém retirou as tábuas que faziam de piso nessa ponte, tendo ficado apenas a armação em ferro. Como devem calcular isso tornou a ponte muito mais perigosa, e como tal, muito mais interessante. Pergunto-me quantas das autoridades daqueles anos ainda estariam presas se a ASAE então existisse, já para não falar do Daniel Sampaio.
A história de hoje, depois desta enorme introdução, é sobre os baloiços. Eu devia ter a minha meia dúzia de anos, ou talvez nem sequer isso, tenho boa memória mas também não exageremos. Não faço a mínima ideia onde estavam os meus pais ou os meus avós. Provavelmente estavam na tal esplanada, mas também não é de excluir a hipótese de eu ter saído do alto da barra para ir ao parque sem ter avisado ninguém, algo que acontecia com mais frequência do que a que os meus pais sonhavam nos seus piores pesadelos. Como de costume estava num dos baloicinhos a treinar essa arte que tinha aprendido há pouco tempo que se baseava em pequenas oscilações no posicionamento das pernas para usar a força gravítica com o objectivo de produzir um movimento pendular, vulgo, andar de baloiço. Enquanto me divertia com isto, olhava de soslaio com uma inveja e admiração brutais para um grupo de miúdos enormes ( 9 ou 10 anos ) que estavam nos baloiços maiores. Esses foram talvez os meus primeiros heróis. Eram grandes, seguros de si. Pouco depois de se sentarem nos baloiços dos crescidos já rasgavam a atmosfera a velocidades estonteantes. Davam gritos orgulhosos quando subiam em direcção ao céu, e quando desciam de novo sabiam que esse recuo era apenas a oportunidade para lançarem uma nova investida. Muitos anos antes de o mundo se ter apaixonado pelo Tom Cruise no Top Gun, já eu era fã desses “ases indomáveis” que ainda tinham a lata de, passado algum tempo a baloiçar se lançarem no ar num voo imparável para aterrar na areia que servia de solo aos nossos sonhos. Como eles eram fortes e audazes, como eu queria tanto ter 10 anos para ser assim.
Mas, nesse dia algo mudou. Fartei-me de esperar e quando eles se foram embora, sim, sempre tive medo de mostrar coragem em público, larguei a segurança do baloicinho e aventurei-me em territórios até então desconhecidos. Com alguma dificuldade nada inesperada sentei-me num dos baloiços grandes e lá vai de mexer as pernas. Não custou tanto como pensava. Passado um bocado já atingia velocidades que nunca antes tinha conhecido. Agarrava-me às correntes como um naufrago a uma bóia e voava e voava como naquela música revolucionária sobre gaivotas livres. O que mais me lembro é da sensação daquela pontada maravilhosa no estômago à medida que desafiava a gravidade em direcção ao infinito. Não queria parar. Aquilo era demais, achei que estava a viver o momento mais importante da minha vida. Entretanto, decidi que mesmo já sem fome queria comer a refeição completa. Estava tudo a correr tão bem mas já que tinha chegado ali, ia até ao fim. Decidi que também queria saltar. Era a conclusão lógica, se conseguia andar no baloiço grande como eles, também conseguiria saltar como eles. Então a meio de uma subida, largo as mãos das correntes e empurro o corpo para a frente. Por leis Físicas que vim a aprender muitos anos mais tarde, em vez de ser impulsionado em frente, fui para cima. O baloiço em vez de se retirar para o seu lugar como forma de homenagem à minha coragem, acertou-me em cheio na nuca, como que para castigar a minha arrogância.
Levantei-me completamente tonto e com uma dor na cabeça como nunca tinha sentido, e apesar de a ter partido já três vezes, também nunca esqueci. Olhei à volta, o parque estava quase vazio. Pelo menos não tinha que suportar a vergonha na presença de outras pessoas. Fui esconder-me em baixo da ponte a chorar (sim, eu fui um puto muito piegas) e depois de ter passado a dor e a vergonha, fui embora com o rabo metido entre as pernas.
Mas voltei. Não sei se no dia seguinte se alguns dias mais tarde. Sei que voltei e mais cedo do que tarde, aqueles baloiços também já eram meus, e sim, aprendi a voar sozinho, e sem marrar com a cabeça no baloiço. A partir daí o problema passou a ser fugir dos meus antigos heróis quando eles apareciam aos urros histéricos a dizer que aqueles baloiços eram deles e não para bebés.
Voltarei com mais histórias. Até já.
PS – Obrigado Neide. A nossa conversa sobre o parque infantil da ilha da Armona foi a causa disto. Beijoca.

Os três mosqueteiros

Não vou falar do fabuloso romance do Alexandre Dumas, nem das suas inúmeras sequelas. Não vou sequer falar do Dartacão que animou as tardes da minha infância. Vou falar apenas de três pessoas, aliás, de duas que fazem parte de um grupo de três.

Somos amigos, apenas isso. Escrevo isto com a ligeireza de quem por um momento se esquece que pode haver algo mais forte do que a amizade. Conhecemo-nos há muitos anos. Há tantos que nem sequer sei se quero contar. Não nos vemos diariamente, não temos aquela lidação intensiva que muitos pensam ser condição sine qua none para se reclamar uma relação como de amizade. Temos apenas uma rotina em comum, um encontro anual em Olhão no festival do marisco.

Ultimamente tivemos uma grande ajuda que veio pela forma do Facebook, essa poderosa rede social de quem muitos falam bem e muitos outros falam mal. Por um passe de engenharia informática universalista, passámos a estar juntos todos os dias. Conseguimos recuperar a oportunidade de saber a cada minuto o que se passa com cada um, voltámos a descobrir quase à velocidade do pensamento o que estamos a passar, as músicas que queremos ouvir, os poemas que nos apetece recitar, as pessoas que ousamos amar.

Mas afinal quem são estes três artistas que por aqui andam a descobrir-se e redescobrir-se em direcção ao infinito ? Bem, um sou eu. Já me conhecem, não me vou descrever porque detesto falar de mim, como estão cansados de saber. Além disso, o assunto não é muito interessante, sou o vulgar totó que todos conhecem. Agora em relação aos outros dois, aí merece perder algum tempo.

O Nuno é um herói. Não estou a gozar, é um daqueles homens que estamos habituados a conhecer nos livros de histórias e nos filmes épicos. É um profundo idealista que, apesar de ter o corpo em chagas de batalhas e derrotas passadas, continua a lutar, como se nada mais soubesse fazer. O Nuno tem a coragem típica do desespero, ataca sonhos e objectivos com uma garra estranha para os dias que correm e, nem sempre, se dá ao trabalho de se proteger do que possa correr mal. Se D Quixote voltasse à existência por um fabuloso passo de mágica, seria uma pálida caricatura do meu Amigo Nuno Pereira. Esse gajo limitou-se a carregar sobre moinhos depois de comer uns cogumelos manhosos, o Nuno desafiaria exércitos temperados pelo fogo do inferno com uma rosa nas mãos e um sorriso nos lábios. Nele há acima de tudo vontade. Uma vontade inebriante de conquistar o impossível, uma força de vontade que se alimenta de derrotas passadas, uma entrega que só pode ser descrita por aqueles e aquelas que um dia foram capazes de se deitar à sombra da segurança que ele tanto tenta oferecer a quem ama. Sim, porque em última análise, depois de tudo ter sido pesado, analisado e escalpelizado, é o Amor a força que o impulsiona. O Nuno é um dos homens mais perigosos que conheci na vida. Ele é perigoso porque acredita firmemente no que diz, ele diz sinceramente o que sente e sente absurdamente aquilo por que luta.

Depois ainda há a Sandra. Para a Sandra é ainda mais difícil arranjar adjectivos. Ela é o elemento aglutinador deste nosso grupo informal. É a verdadeira líder, a voz da racionalidade quando ela faz mais falta. É claramente a mais inteligente de nós, o que não quer dizer que sinta menos do que nós, muito pelo contrário. A Sandra navega pela vida sem a intensidade das nossas cargas suicidárias de cavalaria, ela consegue estar presente de uma forma menos emotiva, mas nunca menos emocional. Ela consegue manter e mostrar um rumo quando tudo à nossa volta parece estar perdido. Nós podemos ser o vento que impele as velas ou a força que faz mover os remos, mas ela é a bússola e o astrolábio que nos dão o rumo. Por vezes podemos vê-la calma e quase impassível perante situações de risco ou de stress, e nesses momentos só quem não a conhece é incapaz de ver no brilho dos seus olhos o fogo que lhe arde no coração. A minha querida Amiga Sandra Paulo pode por vezes parecer feita de gelo mas é uma daquelas estátuas de fogo esculpidas nas entranhas da Terra.

Juntos somos perfeitos porque desenvolvemos uma extraordinária capacidade de nos abastecermos uns aos outros do que precisamos para carregar aos ombros o peso dos dias. Um partido político juntou-nos há uns anos atrás, mas o que nos uniu é bastante mais forte do que isso. São anos de experiências, de partilhas, de risos e lágrimas, de euforias e neuras partilhadas. Há uma miríade de momentos que foram eternizados porque partilhados. Há uma infinidade de experiências que contribuíram para fazer de nós quem somos, mas que, por partilhadas, fizeram deste grupo uma irmandade rara e valiosíssima.

Hoje sei que posso arriscar. Sei que posso perder, sofrer, sei que por muito mal que esteja, os outros dois estarão comigo. À distância de um click, à velocidade de um pensamento. Sei, e eles também o sabem, que tenho uma rede para me amparar das quedas, uma bóia para me salvar do naufrágio. Tenho no Nuno a força, a garra e a determinação que me lembra que a força de vontade, a perseverança e o Amor podem mudar o mundo. Tenho na Sandra a razão para travar os meus mais entusiásticos impulsos e o fogo que me vai aquecer quando o frio da derrota me invadir todos os poros da alma.

Tenho-os comigo e eles têm-me para si próprios. Enquanto eles ficarem, eu não saio. Enquanto eles existirem, eu não desapareço.

Vizinhos

Moro num apartamento. Num quarto andar mais precisamente. A minha casa tem duas varandas, uma pequenina, daquelas onde cabe o coração, a outra bem maior, nessa cabe o mundo, pelo menos o meu. Como vivo num apartamento que fica num prédio, tenho obviamente vizinhos.
Há uma família de quem gosto bastante. Não os conheço, é claro. O meu "gosto bastante" significa que têm a capacidade de me emocionar quando me cruzo com eles pontualmente. 
Não sei que espécie de leis eles violam todos os dias, mas transpiram felicidade por todos os poros. Já o vi abrir-lhe a porta do carro uma vez, já os vi andar de mãos dadas, mas a minha preferida foi mesmo vê-lo um dia a fazer um esforço hercúleo para segurar a porta do prédio enquanto ela entrava, e digo esforço hercúleo porque ia carregado com não sei quantos sacos de compras. Há por aí umas parvalhonas adeptas de umas ideologias igualitárias manhosas e subscritoras da lei das cotas que acham isto de certeza sexista. Parece que o homem está a demonstrar a incapacidade da mulher e a inferiorizá-la por lhe abrir a porta ou querer vestir-lhe o casaco. Não vou tentar rebater os argumentos das críticas do cavalheirismo, mas, já agora , também não vou perder a oportunidade de as mandar à merda.
Ela, por seu lado, é uma doçura. Bem tento, mas não consigo disfarçar o olhar de inveja quando me cruzo com eles no elevador e ela vai com a cabeça encostada ao seu ombro com um sorriso de felicidade, como se 15.000 milhões de anos de evolução cósmica tivessem ocorrido apenas com o objectivo de tornar aquele momento possível. 
E depois há ainda a forma como falam um com o outro. Descer o elevador de manhã a caminho do trabalho com uma vontade imensa de ter continuado a dormir tem muito mais piada quando o faço acompanhado por um casal que se trata por "querida", "fofinho", "amor" e outras palavras maravilhosas do campo semântico do magnífico.
Eles têm duas crianças. Um petiz caladinho e sossegado com olhos de detective que parece absorver pedaços da realidade a cada olhar. A miúda é irrequieta e explosiva, daquelas que um dia ainda salta pela janela para descobrir a quê que sabe cair.
Ver os quatro juntos é um regalo para os olhos e um bálsamo para o coração.
Adoro estes meus vizinhos, mas se voltam a tocar vuvuzelas três horas seguidas, como fizeram esta tarde, juro que os mato à machadada.

Não sei quando começou. Ou talvez até saiba. Eu compreendo que tenha sido chato teres sido denunciado a meio de um roubo. Eu até aceito que haja uma vontade de vingança contra o gajo que te denunciou. Eu assumo o meu papel em toda esta novela mexicana, epá, mas porquê hoje ? Não podias ter escolhido outro dia ? Sabes onde moro, já te cruzaste comigo várias vezes na rua, por que raio tinhas que fazer isto logo hoje ?

No início foi tudo muito rápido, sem sequer ter direito a um daqueles diálogos que servem de prólogo nos filmes.

“Lembras-te de mim ? Eu disse que te ia apanhar !”

“Sim, mas olha, apanha-me outra noite porque estou com alguma pressa e tenho gente à espera.”

Dois segundos depois já estou a apanhar. Levo um soco entre o queixo e a boca, pelos vistos o gajo está a levar isto a sério e não vale a pena mandar bocas parvas. Dou dois passos atrás.

“Não achas que é melhor ter calma antes que isto piore ?”

Avança na minha direcção. Levanta a mão e soca o vazio, eu fui mais rápido desta vez. Não desiste. Mais dois socos perdem-se no ar, o terceiro acerta-me no ombro esquerdo. Empurro-o. Tenho tempo e espaço para fugir mas algo me prende as pernas, algo me amarra a vontade e fico a olhar impávido enquanto se levanta e volta a avançar na minha direcção. Nova tentativa, desta vez prendo-lhe o braço e enfio-lhe o punho no peito, por baixo do esterno, com toda a força que tenho e não tenho. Cambaleia, cai. Está com um joelho no chão a ofegar, devo ter acertado mesmo no sítio certo.

“Já percebeste que é melhor parar com esta merda antes que nos magoemos a sério ?”

No meio de um arraial de insultos viro-lhe as costas e vou-me embora.

“Estás a fugir oh maricas de merda ?”

Volto a virar-me. Agora está de pé com uma tábua de madeira na mão. Isto está mesmo a ficar complicado.

“Ainda bem que trouxeste uma muleta, vais precisar dela.”

É mais forte do que eu, não consigo estar calado nem sob ameaça. A porcaria da tábua passa ao lado da minha cabeça uma vez, à segunda acerta-me em cheio em cima do olho direito. Desta vez doeu a sério, agora sou eu que cambaleio inebriado por uma tontura súbita. Quando volto a levantar a cabeça ele está a avançar, e agora segura a tábua com ambas as mãos. Jogo o pé direito com força contra a parte que sei que lhe vai doer. Pronto, parece que isto resolveu de vez o problema. Mas não, ainda não. Dou-lhe mais um pontapé, de cima para baixo num dos joelhos. Está deitado no chão sem saber onde se agarrar por não saber o que lhe dói mais.

“Chega Nicolae”, digo-me a mim mesmo mas ignoro-me. Ajoelho-me sobre o seu peito, “Não faças isso !”, um soco, dois, três …

“Pára” pede-me ele. Quatro, cinco … Não percebes que não te estou a bater ? Não percebes que essa tua figura frágil e desprotegida me enoja ? Não consegues entender que olho para ti e só consigo ver a minha cara ?

Seis, sete … agarro-lhe os cabelos com a mão esquerda, puxo-lhe a cabeça para trás e levanto a mão direita para um soco final mas paro a meio.

Não sei o que aconteceu. Já revi a cena umas dezenas de vezes mas continuo a não compreender o que me fez parar. Pode ter sido o sabor acre do meu sangue na boca, pode ter sido o gosto amargo da adrenalina, a dor lancinante na cabeça. Posso ter tido uma epifania de humanidade no meio da selvajaria, posso apenas ter-me lembrado que estavas à minha espera.

Levanto-me e volto para casa. Olho-me ao espelho para ver o resultado da aventura. Um lábio inchado, um olho que parece uma batata mal enxertada e a mão direita vai começar a doer, é certo como um pêndulo. Não tenho paciência para tratar das feridas, que não são mais do que superficiais, pelo menos comparadas com as outras. Sento-me no sofá, troco duas smss e deito-me. Não consigo parar de tremer, não sei se de raiva, de vergonha ou de nojo. Já sei que não vou conseguir ficar aqui fechado mas ainda resisto a sair, estou no “good bye cruel world” dos Pink Floyd, o muro está definitivamente a fechar. Sou o Anakin Slywalker depois de chacinar os Jedis, vejo-me claramente a atravessar uma fronteira que não conhecia. Tenho que sair, tenho que te ver, tenho que ver alguém. Esta viagem tem que ser interrompida e tem que ser já. Não quero ver ninguém mas nunca precisei tanto de pessoas à volta. É isso, estou a precisar de ajuda, vou sair. Até já.

Ontem fui atropelado, e sem estar à espera. Foi logo pela manhã, como se fosse uma espécie de castigo por me recusar a acordar verdadeiramente antes das 10h30/11h00.
Na minha ronda diária pelos sites das escolas do Algarve descobri um vídeo feito por professores e alunos da escola secundária Francisco Fernandes Lopes, em Olhão. Foi imediato. Chocante. Apaixonante. Intenso.
Nuns breves seis ou sete minutos passaram-me à frente dos olhos seis anos de vida. Em pouco mais de 360 segundos, perdi vinte anos de vida e voltei a ser o puto que conheceu de olhos fechados todos os cantos e recantos daquela escola.
Os minutos de ansiedade antes do desejado 2º toque, as correrias pelos corredores, os jogos de futebol e as tropelias no mini trampolim às escondidas dos profs de educação física. Lembrei-me das aulas, das que gostava e das que nem por isso e dos professores e professoras que no intervalo do seu trabalho ainda tiveram tempo para fazer de mim o que sou. As partidas pregadas, as amizades criadas, beijos roubados e olhares trocados. Ontem a minha juventude voltou, tal como no Misplaced Childhood dos Marillion, e a culpa foi vossa.
Num tempo em que a educação aparece sempre nas notícias pelos maus motivos, a minha escola fez o contrário, num tempo em que a violência, o bullying, o desânimo e o protesto imperam a sua vontade, a secundária de Olhão mostrou aquilo que uma escola pode ser, aquilo que uma escola deve ser. A criação deste vídeo foi um trabalho colectivo e constitui o melhor cartão de visita que já vi uma escola fazer. Entre a visita guiada estão presentes os mais importantes espaços, estão evidenciadas todas as actividades desenvolvidas. Há uma alegria e uma dinâmica contagiantes que nos chega a fazer esquecer os problemas que afectam o ensino nos dias que correm.
Ontem fui atropelado logo pela manhã e passei o resto do dia a rir. É verdade que também me correram algumas lágrimas, mas ri-me como há muito tempo não o fazia. Cada centímetro quadrado daquela escola é para mim solo sagrado, e como não me esqueço do que lá vivi, também não me esquecerei da forma como me fizeram recordá-lo.

http://www.youtube.com/watch?v=C3ecwTdCNQc

Por um futuro Seguro


Já se falava em surdina por muitos. Já se esperava por tantos outros, os que não temem a esperança. Já se adivinhava pela onda de simpatia e empatia que o cerca. António José Seguro afirmou publicamente o que uma grande quantidade de Socialistas ambicionava, quando o momento chegar, assumirá as suas responsabilidades e será candidato a Secretário-geral do partido.
No dia em que foi assinado o acordo entre José Sócrates e Pedro Passos Coelho com vista à redução do défice e à consolidação das contas públicas, Portugal toma conhecimento da disponibilidade de António José Seguro para um dia liderar um dos partidos estruturantes da nossa Democracia, e, fruto disso, para liderar o nosso país. Na manhã em que somos atropelados pela violência das nossas dificuldades presentes, tomamos conhecimento que, o futuro pode já estar em construção.
António José Seguro tem uma dimensão política rara nos dias que correm. Recusa o discurso tecnocrático tão em moda naqueles que se apresentam como donos de soluções que nem sequer gostam de ver questionadas ou discutidas. António José Seguro rompe com o pensamento único do “tem que ser” e regressa à Política, aquela com P maiúsculo de que tanto gosta de falar. Há de facto uma forma diferente de fazer política, há uma forma de entender e debater os assuntos com a abertura de quem quer gerar soluções sem fazer imperar a sua agenda. Há, tem que haver, uma forma de alargar a governação ao entendimento e compreensão dos que são governados, ao invés de se limitar esse nobre acto a uma constante cruzada contra os que põem em causa as opções tomadas.
António José Seguro tem um currículo ímpar na defesa dos direitos dos cidadãos, tem uma agenda muito própria na luta pela despartidarização da sociedade, agenda essa fruto da sua experiência associativa e de uma crença profunda que a Democracia não sobrevive sem os partidos políticos, tal como não é completa só com eles. A reforma da Assembleia da República elaborada no mandato anterior é apenas um dos exemplos desta forma de entender que quem exerce o poder pode, tem e deve ser escrutinado pelos outros. A vontade de permitir que sejam os cidadãos a propor o Provedor de Justiça é outra assinatura reconhecível desta forma de entender uma sociedade democrática tais como são as suas inúmeras e conhecidas intervenções no sentido de haver uma cada vez maior liberdade de voto dos deputados.
Em António José Seguro o discurso populista contra o sistema e contra os políticos não tem eco. António José Seguro é um político, é-o com honra, com paixão e com ambição. Com a honra de quem tem um percurso impoluto no serviço à res publica sempre que foi chamado a exercer funções executivas ou parlamentares, com a honra de quem discordando soube fazê-lo na altura certa e nos canais próprios, ao invés de entrar no espalhafato da berraria na praça pública. Com a paixão de quem não se verga ao discurso da inevitabilidade, com a paixão de quem luta pelo que acredita e de quem acredita que pode fazer a diferença. Com a ambição de quem sente que é possível mudar para melhorar, de quem sabe que por muito popular que seja atacar o "sistema" é muito mais profícuo intervir de forma a melhorá-lo, com a ambição de quem quer um novo rumo para a nossa política, para a nossa sociedade, para o nosso país.
António José Seguro dá-se ao luxo de acreditar no que diz, e de saber porquê. Quando fala da necessidade de libertar os deputados do jugo dos directórios partidários, fá-lo porque entende que nenhuma Democracia representativa pode ser plena enquanto a Assembleia da República for povoada por "funcionários dos partidos". Quando repete até ao expoente da exaustão que os eleitores têm que conhecer o trabalho efectuado pelos parlamentares, fá-lo porque sabe que nenhum sistema político sobrevive a longo prazo ao divórcio entre eleitores e eleitos. Quando apela a novas formas de participação cívica fá-lo a pensar que todos têm o direito de intervir na sociedade, TODOS, e não só os que procuram os habituais canais políticos para o fazer.
Com António José Seguro haverá decisão e diálogo, cada qual com o seu peso e medida. Haverá procura de novas soluções para problemas antigos e investimento na melhoria da saúde da nossa Democracia. Não é de se esperar uma promessa irresponsável numa solução quase mágica das nossas dificuldades, mas, tenho a certeza, será reforçada a comunicação entre o poder executivo e os portugueses, que são, em última análise, sempre os actores principais da nossa Democracia. Em António José Seguro não há a tentação do culto da personalidade, ele é um homem de equipas e recusa a excessiva personalização do poder com a mesma veemência com que recusa a dimensão messiânica que continuamos a atribuir aos nossos líderes.
Ontem, dia 15 de Maio, senti-me melhor e mais aliviado, não só como Socialista, mas também, e acima de tudo, como Português. Por muitas dificuldades que vivamos, por muitas dúvidas que tenhamos, por muito impossível que possa parecer o caminho, permito-me a olhar o futuro com esperança. Muitos amigos, colegas e camaradas referem-me com frequência as saudades que têm de um passado em que tudo aparentava ser melhor. Com a disponibilidade manifestada por António José Seguro, saudades, eu já só consigo ter do futuro.     

Filhos do mar

Algures perdida na memória está a fundação de Olhão. De acordo com os relatos que nos chegaram, o pólo aglutinador deste novo povoado foi uma grande nascente de água potável que estava situada num terreno seco cercado por pântanos e sapais.
Por uma daquelas ironias que fazem a história, a presença de água doce possibilitou a criação de uma terra que passou a viver da água salgada.
Os Olhanenses cedo descobriram de onde viria a sua riqueza e a sua glória. E viraram-se para o mar. Inicialmente fizeram-no por uma questão de sobrevivência e, só depois, perceberam as enormes possibilidades que se abriram à sua frente.
O povo de Olhão mariscou em todos os poros da ria formosa. Pescou na ria e, quando se lançaram no mar alto, fizeram-no com a coragem do desespero e empurrados por um impulso que só a fome pode dar.
As gentes de Olhão fizeram dos seus barcos extensões das suas casas, levaram a todos os cantos do mundo pedaços de si e da sua terra. Um barco a navegar é muito mais do que um meio de transporte, está muito além de uma simples obrigação profissional.
Há quem se perca fora de casa, há quem se sinta irremediavelmente desenraizado quando a distância o separa daquele pequeno mundo que é o seu. Os Olhanenses resolveram esse problema levando com eles esse pequeno mundo. Esculpiram-no em madeira, colocaram-lhe umas velas e deixaram que os seus sonhos substituíssem o vento e os levassem inexoravelmente em direcção ao infinito.
Venceram correntes e enfrentaram tempestades. Cavalgaram ondas e rasgaram auto-estradas marítimas onde nada havia, a não ser o bafo imponente do oceano.
Tudo iniciou com a pesca, mas foram vertiginosamente arrastados para o comércio, e, para a sua extensão legalmente duvidosa, o contrabando. Entre os mares de Larache e os portos da Sardenha, entre as enseadas da Bretanha e as águas tropicais do Brasil, lá estavam eles, à espera de ser encontrados. A pescar, a vender, comprar e contrabandear.
Os Olhanenses adoptaram o mar, e, fazendo-o, tornaram o mundo o seu quintal dos fundos. Entre viagens que se perdiam num tempo de espera que não terminava, entre lágrimas e naufrágios, Olhão cresceu sob alicerces de água salgada. Foi ao mar que lançaram as suas sementes, foi do mar que colheram os seus frutos.
Hoje, alguns séculos depois, apesar de afogados em dificuldades e mareados pela, há muito decretada, morte da pesca, ainda há em Olhão alguns descendentes de um povo que um dia decidiu pescar e navegar em direcção ao futuro.

Antoine Lavoisier


Foi a 8 de Maio de 1794. Não sei bem as horas nem os pormenores da situação mas calculo que tenha sido numa praça pública, e que a mesma estava cheia de gente, afinal há poucas situações tão mobilizadoras como um espectáculo de violência gratuito. Caminhou escoltado, o poder tem a infinita fraqueza de achar que tem que sujeitar a força as suas vítimas. Foi certamente apupado e insultado. As moles humanas têm o vigor dos covardes e só na sua miríade de indivíduos a pregar a acefalia a plenos pulmões conseguem pronunciar em público o que teriam asco de pensar em privado. Acarinho o pensamento de que se manteve hirto e íntegro até ao fim. Acalento a esperança de que tenha sorrido sarcasticamente quando lhe repetiram as acusações. Sim, elas foram repetidas. Mais uma vez, a tirania necessita de humilhar as suas vítimas antes de as destruir. É uma daquelas verdades insofismáveis, quem combate a razão é obrigado a ridicularizá-la porque sabe a priori que o tempo encarregar-se-á de repor a verdade.


Neste momento está deitado. O corpo tenso molda a tábua onde se deita, tábua essa, que em tempos, como parte de um carvalho, ou de um pinheiro, nunca sonhou terminar os seus dias como figurante de uma peça tão insidiosa. Os seus olhos são vendados. Pelo menos oferecem-lhe essa opção. Mais uma vez o meu carácter idealista obriga-me a acreditar que recusou essa espécie nojenta de sublimação da parte dos seus torcionários. Não ! Não aceitou ! Lavoisier fez questão de ver a lâmina afiada da estupidez a descer sobre o seu pescoço.


Foi no dia 8 de Maio de 1794. Um pedaço de ferro desceu, escravizado pela força da gravidade e controlado pelo poder arrogante de uns arautos de um pretenso mundo novo. Numa fracção de segundo uma cabeça separou-se de um corpo tornado inerte. Numa fracção de segundo a um dos cérebros mais brilhantes da humanidade foi sonegado o direito à vida.


Antoine Lavoisier é considerado por muitos como o pai da Química moderna. Durante a sua vida, reformulou a nomenclatura química, identificou e baptizou o oxigénio e o hidrogénio. Libertou-se da lei da morte ao postular a Lei da conservação da massa, segundo a qual, nada se perde, nada se cria, tudo se transforma, uma das mais populares citações conhecidas, aplicada às mais variadas situações. Pelo caminho provou que a combustão dependia da presença de oxigénio e reduziu à insignificância teoria do Flogisténio. Rasgou autoestradas em direcção ao conhecimento da estequiometria e ensinou-nos que o diamante é uma forma cristalizada de Carbono.


Mas e se Lavoisier estivesse errado ? Pensemos por um momento que a famosa “nada se perde, nada se cria, tudo se transforma” não correspondesse à realidade. Vamos pensar em nós, nas nossas vidas, nas nossas experiências, nos nossos sonhos. Vamos gastar algumas sinapses cerebrais a imaginar o que seria se simplesmente nos recusássemos a aceitar ser meros espectadores de um processo contínuo e infindável de transformação. É verdade que todos os átomos que constituem as moléculas que formam o nosso corpo não se esgotarão com a nossa morte. Eles existem à tempos infindáveis e sobreviver-nos-ão. Eles são produto de combustões estelares e fazem de nós, em última análise, produtos de estrelas ha muito desaparecidas na imensidão do tempo cósmico.


Gosto no entanto de acreditar que somos mais do que o ajuntamento das entidades físicas que forma o nosso corpo. Nesse sentido, olhando para a nossa, ou pelo menos para a minha, vida consigo ver um ganho constante e sucessivo, algumas transformações, mas nenhuma perda. Olhando para trás com os meus olhos sempre mais implacáveis para mim do que para os outros, tenho muita dificuldade em identificar situações de perda. Continuo com uma espécie de arrogância juvenil que entende todas as experiências vividas como um ganho.


É verdade que já não tenho próximos amigos que me são queridos, é verdade que já não tenho vivas pessoas que me foram, e continuam a ser, fundamentais, é, dolorosamente verdade, que amores sentidos não passaram de promessas lindas de poemas numa vida cada vez mais escrita em prosa. Mas e depois ? Será que isso foi uma perda. Como posso ter perdido algo ou alguém que carrego na memória à distância de um pensamento ? Como poderá ter desaparecido alguém a quem recorro nos mais solitários momentos de introspecção ?


O mesmo se passa com os sonhos. Continuo a criar sonhos à medida das situações e das pessoas com quem me cruzo. Insisto em ver a cada faceta da vida o que pode vir a ser e não me consigo satisfazer com ver o, muito mais seguro, que é. Olhar para a realidade actual é esquecer que o tempo presente é convencionado ser de três segundos. Pensar no presente é abdicar de imaginar o que será o próximo parágrafo que escreverei daqui a três minutos.Eu sei que sou um optimista inveterado. Mas sei por que o sou, e isso é que para mim é importante.


Lavoisier mudou a Química, e de uma certa forma o mundo. Lavoisier associou a degradação dos metais à presença de oxigénio, e, em última análise, a lâmina que o matou enferrujou na presença do oxigénio que ele baptizou muito mais depressa do que as suas ideias foram esquecidas. Lavoisier caiu como mártir no altar sagrado da alarvidade mas não será jamais esquecido.


Eu, contudo, em mais um ataque de convencimento postulo que a lei da conservação da massa não se aplica à minha vida. Comigo, nada se perde, tudo se cria e, em caso de necessidade, algo se transforma.


E transformar-me-ei.


Obrigado Lavoisier.
 

Cara lavada

Uma das primeiras técnicas de engate que me ensinaram foi "quando não há substância, aposta na imagem". Passados para aí uns 20 anos decidi finalmente pô-la em prática. Como ando num blackout de escrita, ou seja, não há substância, decidi mudar a imagem para não dizerem que já não faço nada e que já não quero saber dos meus fieis dois ou três leitores.
Espero que gostem da cara nova e que tenham alguma tolerância pelo meu silêncio. Um dia voltarei, como aliás volto sempre.
Abraços e Beijinhos

Diz-se que o criminoso volta sempre ao local do crime. Assim foi. Não tive à minha espera polícia nem exército, mas crime cometido quando lá estive não foi muito grave. Foi uma terça feira, a de carnaval. Tal como na outra terça feira, a de início de Novembro, apenas um dos restaurantes estava aberto, o do Toy.
O espaço estava atolado de gente, a hora era tardia para almoçar, 14h30, o que nem foi muito grave porque no Alentejo o tempo corre mais devagar e a tolerância para quem não segue os preceitos temporais estabelecidos é maior.
Desta vez, ao contrário da outra, fui acompanhado. Não levei o meu chapéu preto, não passei o tempo a escrever e, além disso, o comprimento do meu cabelo foi reduzido a 1/5. Vi 3 caras conhecidas da última aventura. Caras de homens já não invisíveis à memória mas que ainda assim pouco fizeram além de um gesto indistinto com a cabeça. Não me reconheceram, pensei eu, dadas todas as diferenças que acima descrevi.
Quem me reconheceu claramente, apesar de não saber de onde, foi a senhora da mesa do lado. Assim que entrámos olhou-me fixamente e passou o resto do tempo que esteve presente a olhar para mim e a segredar à filha que estava ao seu lado. Não faço ideia de quem seja e duvido que algum dia venha a saber. Calculei que fosse natural visto não sermos clientes habituais da casa. Uma espécie de reconhecimento imediato dos dois antigénios presentes num ambiente assepticamente reconhecido. Mas não. Não foi isso. Ou então não era Alentejana. Os Alentejanos são os outros três que me reconheceram mas, dada a presença de alguém que não pertenceu ao microcosmos da experiência anterior, optaram por aquele silêncio ausente entre comparsas.
Minha Senhora, não sei quem é nem nunca virei a saber, mas tem claramente algo a aprender com os seus conterrâneos. Eles sabem marcar presença ausentando-se, eles souberam aparecer numa noite de Novembro e manter-se desaparecidos num almoço de Fevereiro.
Definitivamente, gosto mesmo desta terra. Não foi a primeira vez que lá fui e sei que vou voltar.
Além disso as presas de porco preto estavam divinais !

Olhão, 16/2  23h45

História

Se há amor não cumprido na minha vida é o amor pela História. História mesmo. A ciência que nos ajuda a conhecer o passado para melhor compreender o presente. Desta vez não estou a falar das estórias que tanto gosto de contar e recontar até ao expoente do insuportável, cumprindo o meu destino genético que o meu pai me legou.
Estando eu em maré de reequilíbrios e de transformações, decidi que não mais viverei com um "amor platónico" a enfernizar-me o juízo, nem com a dúvida do que poderia conseguir se tivesse coragem para arriscar lutar pelo que quero.
Vou voltar a estudar, e desta vez será História. O e-learning criou possibilidades inimagináveis e a American Military University chamou-me a atenção. A atracção dos diferentes cursos é fulminante e a sedução dos mestrados então é irresistível.
Só me falta ter a certeza do reconhecimento da Universidade, juntar 4.500 dólares e decidir se aposto no Mestrado em História Americana ou se no outro que me tirou o sono, o Mestrado em História Militar.
Sei que desta vez nem vou tentar inventar desculpas para não o fazer. Sei-o com a mesma certeza com que sei  que sou capaz.
Vou voltar aos estudos porque o saber não ocupa espaço, como me ensinaram há muitos anos. Vou voltar a estudar porque preciso de aprender mais e quero ter mais coisas para poder ensinar. Vou voltar à Universidade, mesmo que com um oceano de distância, porque necessito de contactar com pessoas mais inteligentes do que eu, ou pelo menos que saibam coisas diferentes das minhas, como necessito de oxigénio para as minhas mitocôndrias.
Vou voltar a estudar porra ! Felicitem-me ou façam soar requiems à minha sanidade, não quero saber.  

As três semanas de afastamento do blog não corresponderam a três semanas de afastamento da escrita. Esta nova coluna de “Passeios e Vagabundagens” é dedicada exactamente aos sítios por onde tenho andado ou por onde passei, e sobre os quais escrevi mas as férreas leis da preguiça adiaram a publicação.

Começo por Santa Clara de Sabóia. Aqui tenho uma das minhas histórias mais carismáticas. Numa madrugada de inverno de 1999, voltava eu de um fim de semana com a namorada no Porto. O comboio azul, como se chamava, saía da Campanhã às 21 horas e deixava-me em Messines por volta das 7 horas do dia seguinte. Nessa viagem adormeci, como de costume, só que dessa vez acordei subitamente com uma paragem do comboio. Acto reflexo, agarrei o saco e saltei porta fora, já com o comboio a arrancar. Enquanto respirava fundo, o meu cérebro começou a processar conscientemente o que me rodeava. Foi nesse momento que vi que onde devia estar escrito “Messines-Alte” estava escrito “Sta Clara de Sabóia”, e na direcção onde deveria estar a minha escola, estava um pocilgo.

A dimensão titânica da minha burrice atropelou-me à velocidade da luz e, enquanto vomitava impropérios contra mim próprio e inventava em voz alta metáforas para a minha estupidez, uma senhora aproximou-se. Depois de me perguntar o que se passava e de eu ter respondido, explicou-me que trabalhava na passagem de nível, que a casa dela era ali perto e que podia ir para lá para tomar o pequeno almoço com o marido e os filhos que deviam estar a acordar. Bem dito, melhor feito. Enfiaram-me pelas goelas abaixo um balde de cevada e umas tibornas tão quentes como maravilhosas. No final dessa experiência religiosa, enrolei-me numa manta e deitei-me num sofá onde voltei a adormecer. Por volta das 10 horas, já com metade da manhã de aulas perdida, meti-me numa automotora vermelha que se queixava de todas as articulações e se deslocava à velocidade das sinapses cerebrais da Lili Caneças e fui para Messines onde a rotina diária me esperava.

Júlia era o nome da Senhora. Nunca mais a vi, mas também nunca me esqueci dela.

 
Alfa Pendular - 27 /1 - 8h45

Paranóias sem sentido

Acho que foi uma apoteose que ocorreu antes do começo do início. Há quem diga que aí nasceu deus. Há até quem diga que foi deus que lançou os dados que a tudo deram origem.

Sei que depois desse momento inicial e iniciador de tudo, apareceu o tempo. Foi muito antes de nós, muito antes da nossa capacidade e necessidade de o medir, compartimentar e quantificar, já o tempo existia.

Um dia aparecemos. Aparecemos como fruto de uma evolução perdida nas brumas do tempo e não tardou a que descobríssemos que precisávamos de o controlar para não o temer. Criámos os relógios. Instrumentos que usam o tempo para produzir mais tempo, e mais tempo, e mais tempo. E descobrimos que no fim do tempo, o Amor resiste à morte.

Julgámos obter segurança crendo na existência de um relojoeiro supremo, o dono do tempo, o artesão do infinito. Acreditámos que a sua existência traria o equilíbrio necessário a quem vive preso entre o tempo que passa e o tempo que vem. Desejámos sacudir dos nossos ombros curvados a responsabilidade de viver plenamente, porque não podia haver vida plena não controlando o tempo em que ela se desenrola. E o relojoeiro supremo continuaria a olhar pelo tempo. E os nossos relógios continuariam a usar o tempo para produzir mais tempo, e mais tempo, e mais tempo. E o Amor continuaria a ultrapassar a morte.

Depois descobrimos ainda que podíamos dividir o tempo em passado, presente e futuro. Aí sujeitámo-nos à ditadura da nossa criação e tornámo-nos escravos, não de um tempo, mas dos três. Aí bebemos o fel da perda de um tempo que se esvaiu por entre os dedos e no passado ficou. Aí entendemos a efemeridade do tempo que está a passar. Aí decidimos esperar com ansiedade o tempo que há de vir adiando para um futuro próximo ou distante o que não fazemos hoje, por nós e/ou pelos outros. E os relógios continuam a usar o tempo para produzir mais tempo, e mais tempo, e mais tempo. E o Amor continua a ser mais forte do que a morte.

Sentado numa cama de um hospital sou fulminantemente assaltado pelo percurso que me trouxe até aqui. Com dois comprimidos de sabor horrível a dissolverem-se debaixo da língua e uma porcaria qualquer espetada numa veia olho para um espelho distante revelado por uma cortina que se abriu e não me reconheço. Já não sou quem fui e acho que nunca me tornei no que esperei vir a ser. Julgo não passar de uma contradição cronológica entre tempos perdidos, mas ainda assim, sou eu, em toda a humildade das minhas virtudes e em toda a imponência dos meus defeitos.

Olho para trás e vejo o quê ? Os campos relvados do Alto da Barra estão a arder. A terna placidez da Ria Formosa está a arder. O campus de Gualtar está a arder. A estação da CP da Sra da Hora está a arder. Lagos está a arder. As falésias de Aljezur estão a arder. Por entre o fumo e o fogo, uma nuvem de cinzas envolve-me. Cada uma é um pedaço de memória vivida mas não esquecida. Sorrio com a compreensão póstuma de que essas memórias são apenas quem eu fui, já não são quem eu sou.

Está a chegar a hora. Está próximo o momento de inverter o rumo, de mudar de caminho. É chegado o momento de romper com o paradigma electroquímico segundo o qual cargas eléctricas diferentes se atraem e cargas iguais se repelem. Chegou o tempo de compreender que por muito que dois protões se tentem afastar, quando juntos no núcleo, a força necessária para os separar é infinitamente superior.

Hoje regresso ao futuro. Talvez ainda não regresse hoje, mas pelo menos sei que hoje deixo de me afastar dele. Quando sair daqui, desta cama, deste hospital, desta cidade que nada me diz e à qual me condenei a trabalhar, vou procurar os “meus”. Os que estiverem presentes ficam, os que estiverem ausentes vão, os diletantes, que continuem a diletar nos seus destinos.

O amanhã vai chegar diferente. Sei-o, como sei que os relógios continuarão a usar tempo para produzir mais tempo, e mais tempo, e mais tempo. Só que desta vez também sei que não estou condenado ao eterno e etéreo destino de chegar tarde demais para os deuses e cedo demais para os homens. E continuo a saber que o Amor sobreviverá à morte.

(Faro, 7 para 8 de Fevereiro, entre as 3h00 e as 4h15)

" Era uma vez ...

... um Rei que tinha três filhas e quis saber qual delas gostava mais dele".
Assim começou uma "estória" inventada e contada por uma miúda de 12 anos hoje à mesa do almoço. Não a vou reproduzir integralmente, como é óbvio. O que quero mesmo dizer-vos é que ao ser questionada sobre a razão da "estória" inventada, ela limitou-se a dizer-me algo parecido com: "Qualquer esforço feito para te fazer rir ou para te pôr bem disposto vale sempre a pena".
Depois disto, nem sei ainda o que escrever. Sei que há pessoas que continuam a não acreditar em anjos. Sei que ainda há pessoas que não compreendem que existem seres a caminhar entre nós que se sentem bem, que se sentem realizados, que se sentem vivos quando conseguem tornar o momento, o dia, ou a vida dos outros mais feliz.
Eu acredito em anjos. Se vocês já não o conseguem fazer, tenho pena. Por vocês, claro.

Obrigado Sobrinha !!!

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